segunda-feira, 18 de maio de 2015

Guia de leitura para os cadernos econômicos dos grandes jornais e revistas

"Tão logo aprendamos que diferentes teorias econômicas dizem coisas diferentes em parte porque se baseiam em valores éticos e políticos distintos, teremos a confiança para discutir a economia com base no que ela de fato é: um argumento político." (Ha-Joon Chang)

Para ler os textos dos cadernos de economia dos grandes jornais e revistas, primeiro elimine os jargões e os argumentos de autoridade. Em geral, os primeiros nada significam e os últimos nada acrescentam.

Pule gráficos e estatísticas. Quase sempre são apresentados fora de contexto e sem parâmetros de comparação, portanto deles nada se pode deduzir ou concluir.

Nunca se deixe intimidar por números. No máximo haverá alguns dados percentuais ou demonstrações enfadonhas de cálculos aritméticos elementares. Tudo inteiramente supérfluo e descartável. E muito mais simplório do que aparenta ser. Enfrente-os com frieza. Ou se preferir, proceda igualmente ao tratamento recomendado aos gráficos e tabelas. Pule.

Tranquilize-se com os adjetivos. O abuso deles é um expediente usado apenas para dar dramaticidade a assuntos áridos e monótonos. Exemplo: se a variação de qualquer fenômeno negativo (inflação, desemprego, dívida pública etc.) for descrita como "galopante". "alarmante", "exorbitante", é muito provável que o aumento não passe de "0,X%". O truque funciona porque tudo que apela para o emocional tende a ficar gravado na memória. Não se deixe impressionar.

Eufemismos são campos minados. Identifique-os. Como ensina Eduardo Galeano, em seu livro 'Pernas pro ar': “o capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado; imperialismo se chama globalização; suas vítimas se chamam países em via de desenvolvimento; oportunismo se chama pragmatismo; despedir sem indenização nem explicação se chama flexibilização laboral”. Proteja-se.

Muito cuidado com as relações de causa e efeito sugeridas no texto. Normalmente serão meras citações de alguns dados correlacionados. Correlações não são causações. Exemplo: se os saques da poupança aumentaram e a taxa de desemprego aumentou no mesmo período, não significa necessariamente que os desempregados estão retirando suas economias da caderneta de poupança para sua subsistência. O mais provável é que o Banco Central tenha aumentado a taxa básica de juros e os grandes poupadores estejam migrando suas aplicações da poupança para produtos de renda fixa com taxas de juros mais atraentes. Logo, despreze qualquer conclusão apressada. 

Desconsidere sumariamente expressões do tipo: "é inegável que" ou "todos sabemos que", "sempre houve", "é sabido e consabido" ou ainda "não resta dúvida de que". Certezas não existem em economia. Não se trata de uma ciência exata e sim de uma ciência social aplicada. A neutralidade não faz parte do método. O observador (sujeito) interfere no fato observado (objeto) assim como um elefante deixa pegadas em um solo macio.

Eliminadas as gorduras, as armadilhas, as falsas causas e as pretensas neutralidade e cientificidade, indague-se a quem interessa os argumentos apresentados pelo autor do texto. Ou seja, quais setores políticos ou empresariais serão beneficiados pelas possíveis soluções ou críticas apresentadas no artigo? Um único parágrafo é suficiente para obter essa informação. Geralmente o núcleo da argumentação já vem contida no primeiro parágrafo e depois é repetida no último. Opte por um deles e economize tempo. 

Finalmente, divirta-se. É sempre uma atividade lúdica testemunhar a atividade cerebral em sua incansável busca de conferir credibilidade e racionalidade aos interesses humanos mais mesquinhos. Especialmente na área econômica. É no momento em que a "ciência triste", como é conhecida a economia, é levada mais a sério pelos seus porta-vozes que ela se mostra mais cômica.