sábado, 16 de maio de 2015

Memórias de um imigrante ilegal

Foto Andrew Garn's "Rainy Night, 42nd Street

Nova Iorque, 1988

Na pensão da dona Flor
Os beliches se revezavam
De dia, os trabalhadores da noite
De noite, os trabalhadores do dia
Imigrantes errantes
Nos lençóis mal trocados
De todos os submundos
Em sonos claros e escuros 
Sonhavam fazer uma América
Há muito tempo perdida




LAVADOR DE PRATO

Lavo pratos na cozinha de um restaurante chinês. Sem nenhuma eficiência. Devagar e distraído. Sempre prestes a ser demitido. Mas por alguma razão, permaneço. Volto todos os dias. Ninguém fala nada. Ninguém me olha. Então volto de novo. Preciso do emprego. Então continuo. No vai e vem das pilhas de pratos, sinto fome. Vontade de pegar restos de comida que sobram nos pratos. Quase tenho coragem. Mas não dá tempo. Garçons e afins se atropelam na porta. Todo mundo reclama da minha lentidão. Sou desorganizado com as louças. Deixo as pilhas ficarem cada vez maiores. Mas finjo não compreender nada. Continuo. Enquanto a água limpa escorre quente, resseca a pele. Os dedos enrugam. Estou no calor das panelas fervendo. Tudo demora. O suor pinga da testa. Arde o olho. Queria ouvir uma música talvez. Mas só há o barulho da pressa dos talheres que batem nos copos. Sinfonia articulada dos segundos, que passam inteiros. De um em um. Segundo que segue o ritmo pesado e lento. A hora de embora não chega. Até de madrugada, quando misteriosamente tudo acaba. Cozinha pronta para o dia seguinte. Então vou. No caminho até a estação do metrô, o vento escuro de janeiro em Canal Street dá saudade de uma casa qualquer.



Nova Iorque, Foto Matt Weber

ENTREGADOR

Mudei de função no restaurante. Fui rebaixado de lavador de pratos para limpador de qualquer coisa. Limpar a cozinha, o banheiro, trocar os lixos. Um dia no caminho do restaurante, entrei no cinema. Sala de projeção vazia. Pó nas poltronas. Umidade nas paredes. Um filme do John Cassavetes. Perdi a hora. E o emprego. Nunca mais apareci por lá. A sensação foi de liberdade. Podia fazer qualquer coisa. Ou quase isso. Andei o dia inteiro pela cidade. Por dois dias. Tempo de acabar meu último dólar. Pensão atrasada. Nada para comer. Vi uma placa de oferta de trabalho. Contratam-se entregadores. Entrei. Era um lugar simples. O proprietário um imigrante russo. Ele mesmo me atendeu. Perguntei pelo emprego e ele me apontou uma fila. Não compreendi. Estava contratado? Sim, bastava entrar naquela fila. Quando chegasse minha vez, era só comprar o lanche que havia sido pedido. Com o meu dinheiro. E levar até o endereço solicitado. Meu pagamento seria a diferença entre o preço da comida a ser entregue e o valor recebido pelo cliente. A gorjeta seria a única forma de remuneração. Se o cliente não desse nenhuma gratificação, a viagem estaria perdida. O jeito era sair correndo pelas ruas de Manhattan, sem derrubar o lanche. E fazer o maior número de entregas possíveis. Não tive escolha. Olhei para as pessoas na fila. Quem seriam aquelas pessoas? A fome estava aumentando, aceitei o risco. Só um detalhe. Meu dinheiro havia acabado. Não tinha o capital inicial suficiente. Perguntei para o russo se ele podia me adiantar o dinheiro da primeira entrega. Quando voltasse, acertava. Resposta seca. Não. Fui até a fila. Expliquei a situação aos meus novos companheiros de trabalho. Fiz uma proposta. Um dólar de cada um, para o meu cacife inicial. E a primeira gorjeta que ganhasse, repartiria entre os investidores. Depois descobri que muitos eram americanos, veteranos da guerra do Vietnã, com algum tipo de sequela física dos combates. Uns dois porto-riquenhos talvez. Um garoto de Bangladesh. E um surdo-mudo. Negócio fechado. Juntei nove dólares. Entrei na fila. Estava novamente empregado.



Nova Iorque, Foto Matt Weber

A MULHER DO CAIXA


Tudo vai bem no novo emprego. Tenho vinte e dois anos. Acho que nasci para fazer isso. Agora não fico mais trancafiado numa cozinha quente e barulhenta. Todo dia conheço uma rua nova, um endereço novo, um rosto novo. Imagino como será o rosto do próximo cliente. Pelo nome, pelo tipo de lanche, construo uma imagem mental. Aposto comigo mesmo. Mas o rosto nunca é como imaginava. E são muitos rostos. Faço um número incrível de entregas por dia. Entro na fila. Rapidamente compro o lanche. E disparo pelas ruas. Corro entre os carros. Ultrapasso bicicletas. Em meio a buzinas, ventos e freadas, equilibro o lanche. Tudo chega intacto. Quanto mais rápido, melhor a gorjeta. Chego a fazer uns quarenta dólares por dia. A pensão da Dona é Flor é cinquenta por semana. Já está em dia. Preciso economizar para sair dos beliches compartilhados. Quero alugar um pequeno quarto. Só meu. Mas acabo gastando tudo em conhaque, livro e cinema. No fim do dia, não sobra dinheiro. Volto para os beliches. Deitado, no beliche de cima, sinto falta de olhar a mulher do caixa. A melhor hora do dia é quando estou na fila do caixa, perto de chegar minha vez. Um certo frio na barriga. Mãos quase tocam. Às vezes tocam. E ficam ali paradas, por uma fração de tempo. Depois voltam ao lugar de sempre. Não paro de olhar sua boca. Ela é bonita. Uns quarenta anos. Sotaque russo. Casada. Com o proprietário da lanchonete. O marido sempre do lado. Gosto de ficar na fila. Espero minha vez. Procuro seus olhos. Ela se esquiva. Esboço de sorriso. Um rascunho. E ficamos assim, inacabados. Meus companheiros conversam. Contam histórias. Laos. Vietnã. Gritos. Napalm. Histórias da guerra. El Salvador. Abandono. Sobrevivência. Escuto. É inverno. Casacos velhos, sapatos furados. Nunca trocam a roupa. Não tomam banho. Estou ficando igual. A barba cresce irregular. No lugar de espera faz muito calor. O aquecimento sempre ligado no máximo. As roupas pesadas sufocam. Transpiro molhado entre roupas sobrepostas. Lá fora frio glacial. Quando o dia começa, corro por três horas seguidas, o corpo aquece. Depois fica tudo calmo. O suor seca no corpo. A roupa seca na pele. O frio volta aos poucos. Fevereiro. A noite é mais fria. Hora de ir. Aonde? Quarenta e sete dólares no bolso. Quase tudo em moeda. Como serão as noites da mulher do caixa?



Nova Iorque, Foto Matt Weber


DISTRIBUIDOR DE FOLHETOS

Faz duas semanas que trabalho como entregador. No centro de Manhattan. Já faço parte da paisagem. Sou aquele que corre alucinadamente. Com pacotes de comida na mão. Algumas pessoas acenam. Apontam. A rotina é sempre igual. Chego cedo. Entro na fila para as entregas de café da manhã. Por volta das 10h, os pedidos quase param. Aí ficamos ali, sentados numa salinha fechada, escura, aquecedor no máximo, esperando as entregas do almoço. Depois das 15h o movimento praticamente acaba. Comemos alguma coisa ali mesmo. O proprietário faz um preço bom. Três dólares por uma refeição completa. Sem sobremesa. Falamos um pouco. E depois cada um vai para o seu lugar. O meu lugar era nenhum. Mas às vezes comia um doce. A mulher do caixa às vezes me dava uma torta de alguma coisa. Embrulhada num papel cinza. Fazia escondido. Hoje a mulher do caixa fez uma sugestão ao marido. Que me usassem para mais uma outra coisa. O marido, que é o proprietário do local, concordou. Eles me achavam simpático. Poderia atrair mais clientes. Então fui distribuir menus na Quinta Avenida. Nesse tempo morto. Em troca, poderia escolher algum lanche no final do dia, até o valor de dez dólares. Aceitei. A instrução era simples. Ficar parado na esquina de maior movimento. Não parar de sorrir e ao primeiro contato visual, distribuir o menu. Agradecer. Desejar um ótimo dia. E lá fui eu. O vento gelado. Fico ali, parado. Esforço um sorriso. Dentes grandes à mostra. Boca tremendo. Olho os que passam. Mas os que passam não olham. Tento entregar o menu mesmo assim. Com o frio ninguém tira a mão do bolso. Permaneço ali, parado. Inútil. Até que primeira pessoa pega um folheto. Agradeci tão entusiasmado que ela se assustou. A mulher me olhou, jogou fora o papel. Saiu apressada. Resmungando. Acho que não estava funcionando. Depois de duas horas, as mãos duras. Roxas. Lábio paralisado. Anestesiado. Cortado. Olhos lacrimejantes. Corpo trêmulo. Centenas de folhetos no bolso. Casaco pesado. Penso na volta, o que dizer. Mãos cheias de menus. Não entregues. Intactos. Começo a caminhar em direção à lanchonete. Entreguei quatro folhetos em duas horas. O nariz sangrava um pouco. Nenhum contato visual com ninguém. Experimentei a sensação de ser invisível. No Brasil era igual. Pessoas de classes sociais mais baixas são invisíveis para os mais favorecidos. A diferença é que aqui as pessoas são mais frias. Lá, mais hipócritas. Joguei os papéis na lata do lixo mais próxima. Antes de chegar à lanchonete, mudei o caminho. Entrei numa loja qualquer. Comprei um par de luvas. Saí. Atravessei a rua no sentido oposto ao da lanchonete. Comecei a andar. Andei por duas horas sem parar. Parei num bar. Prostitutas faziam ponto por ali. Tomei cerveja quente. O meu dinheiro acabou. Nunca mais vi a mulher do caixa. Estava novamente desempregado.


Foto Steven Siegel

LIMPADOR DE CASA

Duas semanas sem trabalho. Pensão atrasada. Cem dólares emprestados. Uma reserva de comida. Tudo quase acabando. Imigrantes africanos haviam acabado de chegar na pensão. Gente dormindo pelo chão. Hóspede inadimplente não interessava. Recebi um ultimato. Arruma emprego ou cai fora. Pensei em voltar a fazer entregas. Mas a mulher do caixa me desconcertava. Não conseguia mais disfarçar. O marido desconfiava. Faca na cintura. Ia acabar mal. Até que Dona Flor me arrumou serviço. Limpar casa de família. Faxineiro. Não era bem a minha especialidade. A experiência no restaurante chinês não contava muito. Mas aceitei o serviço. Dona Flor aconselhou - faz bem feito que os clientes virão. Cinquenta dólares a faxina. Podia faturar uns duzentos e cinquenta por semana. Cheguei na casa. Oito da manhã. Queens. Bairro triste. Casas acinzentadas. Todas iguais. Rua vazia. Sem movimento. Sobretudos cinza. Céu cinza. O mundo parecia cinza. Barulho de metrô. Um casal. Dois filhos pequenos. Uma babá mexicana. Pagaram adiantado. Falaram da casa, da rotina. E saíram ambos para o trabalho. Proprietários de uma pequena empresa de serviços de entrega. As crianças ficavam com a babá. Olhei a casa. Razoavelmente grande. Muitos cômodos. Muita sujeira. Restos de comida. Entulhada de móveis. Tudo melado de refrigerante. Brinquedos espalhados. Sacos de biscoito no chão. Latas de cerveja abertas. Vidros imundos. Muito pó. Por onde começar? Escova. Pano. Vassoura. Esfregão. Não tinha comido nada ainda. Dor de cabeça, um pouco de tosse, começo de gripe. Comecei. Primeiro, recolher todo o lixo. Havia muita coisa pelo chão. Depois tirar a sujeira impregnada. Esfregar tudo. Água sanitária. Detergente. Sabão. Desinfetante. Álcool. Misturei alguns produtos. Não sabia exatamente qual a função de cada um.  O olho ardia. Lacrimejava. Muita sujeira. Enrolei um pano em volta do meu rosto. Coloquei umas luvas. Tirei a camisa. Enchi um balde com água. Comecei a molhar e esfregar tudo que via pela frente. Chão. Paredes. Móveis. Suava muito. Molhei a casa inteira. Fiquei todo molhado. Espuma por todo lado. Carpete encharcado. Lavava tudo sem parar. As crianças se assustaram com tanta água. A babá se trancou num dos quartos com elas. Fiquei sozinho. Parei para descansar. Cochilei na sala. De repente barulho de chave. O casal que voltava. Olhei o relógio. Sete da noite. Já estava escuro. A casa molhada. A cozinha intocada. Pilhas de louça sem lavar. E o banheiro parecia uma piscina. Comecei a secar tudo muito rápido. O casal percebeu minha situação e foi condescendente. Pediu que eu terminasse em uma hora. Pegaram as crianças e foram jantar fora. A babá ficou. Senti que não ia dar conta. Só tinha uma hora. Olhei para a babá. Morena. Boca vermelha. Cabelo escuro. Pé descalço. Quase bonita. Ela não falava inglês. Eu não falava espanhol. Não trocamos uma palavra. Quando o casal voltou pontualmente, saí pela janela do quarto. Suado. Vento no corpo. Noite de inverno. Vesti as roupas enquanto corria pela rua. Sem parar até o metrô. A nota de cinquenta ainda estava no bolso da calça. Minha única nota. Dobrei. Guardei na carteira. Pulei a catraca do metrô. Dia seguinte. Silêncio. Dor na garganta. Sensação de febre. Comprei o jornal de empregos. Contratam-se carregadores. Nunca perguntei o nome da babá mexicana.




VENDEDOR DE AREIA

Fui me candidatar à vaga de carregador. Auxiliar de mudanças. Nada fixo. Preenchi uma ficha. Aguardava o chamado. Andava em círculos em volta do telefone. Pensão lotada. Dormia no chão do corredor. Tive que abrir mão do beliche. Compulsoriamente. Um africano agora ocupava o meu lugar. Pagou o mês inteiro adiantado. Já era o terceiro dia que esperava um contato da empresa de mudanças. Nada de recados. Fui andar. Nas ruas apressadas de Manhattan. Sem pressa. Nenhum objetivo. De repente chuva forte. Uns gritos. Sotaque forte. Latino. 
- Umbrellas! Umbrellas! 
Um vendedor de guarda-chuvas. Surgiu com a chuva. Brotou do chão. Olhei. Era um dos porto-riquenhos que trabalharam comigo na lanchonete. Parei. Juan Ramon de La Concepcion. Ele se apresentava assim. Nome completo. Mas pedia que o chamassem de Junior. Magro. Baixo. Frágil. Jovem. Rosto envelhecido. Havia largado a lanchonete também. Agora se dedicava ao comércio. Vendia quase tudo. Se chovesse, guarda-chuva. No frio, luvas. No sol, óculos escuros. Andava com uma espécie de baú. Com rodinhas. Conversamos. Reclamei da falta de dinheiro. Junior me fez uma proposta. Disse que minha cara era confiável. Não era como a dele, um ex-presidiário. Na opinião dele eu passava por gente rica. Gente de bem. Honesta. Saímos da chuva e paramos embaixo de uma marquise. A ideia era a seguinte. Ele conhecia um sujeito que trabalhava numa loja de eletrônicos. Lá conseguiria uma caixa novinha de uma câmera de vídeo. Sony. O máximo da tecnologia naquela época. Ele era hábil com as mãos. Deixaria a caixa lacrada. Com plástico e tudo. Dentro da caixa, em vez da câmera, um saco de areia. Para dar peso e volume. O plano. Abordar um turista qualquer e dizer que eu havia sido furtado. Que haviam batido a minha carteira. Mas que felizmente eu tinha conseguido salvar a câmera. Novinha em folha. Saída da loja. Dizer que eu também era turista, que precisava de dinheiro para voltar ao hotel. Tomar as providências necessárias, essas coisas. Mostrar desespero. O objetivo era vender a câmera por trezentos dólares. A câmera custava quase mil dólares na loja. Desesperado, aceitei. Três dias depois fomos até um local movimentado. Muitos turistas. Consumidores ávidos pelo melhor produto com o melhor preço. E eu, vestia a minha melhor roupa. Calça de lã, camisa de gola rolê e um sobretudo preto. Estava mais para um existencialista dos anos 1950 que para um turista recém-assaltado. Na mão, uma sacola com a caixa idêntica a de uma câmera Sony. Perfeitamente lacrada. Com um saco de areia dentro. Estava nervoso. Péssimo. Nada convincente. Iria acabar atraindo a polícia. Quase desisti. Pensei na minha mãe. Desisti. Pensei no despejo iminente. Nas noites dormidas no corredor da pensão. No frio. Tomei coragem novamente. Insisti. Depois de nove tentativas fracassadas, um turista brasileiro achou a proposta atraente. Tentei disfarçar a minha nacionalidade. Fiz um sotaque de europeu. Meio italiano, meio sei lá o quê. Arrisquei e pedi quatrocentos dólares. O sujeito estava com muitas sacolas de compras. Relógio Rolex. Se falso ou genuíno não soube identificar. Negócio fechado. Ele tirou quatro notas de cem da carteira. Tomou rapidamente a sacola da minha mão. E saiu apressado, dando gargalhadas. Junior e eu nos encontramos do outro lado da rua. Repartimos rapidamente o dinheiro. Trocamos os casacos. Coloquei o casaco vermelho dele. Ele ficou com o meu sobretudo preto. Colocamos óculos escuros espelhados. E nos misturamos rapidamente à multidão. Entramos num pub irlandês. Dois cheeseburgers Deluxe. Com fritas. Dez cervejas cada um. Mulheres bêbadas. Soul music nas alturas. Muita fumaça. Cheguei na pensão quase amanhecendo. Cinquenta dólares no bolso. Um crime nas costas. E uma mensagem. Amanhã haveria trabalho. Chegar às sete da manhã no local. 


Nova Iorque, Brookly Bridge

TRÁFICO, ESTELIONATO OU FALSIDADE IDEOLÓGICA?


Cheguei na hora marcada. Sete da manhã em ponto. O encarregado da mudança já estava lá. Más notícias. A mudança que viria de São Francisco atrasou. Só amanhã. Recebi cinco dólares pelas despesas de transporte. Amanhã no mesmo local. Sai andando pela rua. Sete dólares no bolso. Os cinquenta de ontem paguei a Dona Flor. Precisava de mais dinheiro. Hoje. O porto-riquenho. Encontrei o sujeito no mesmo lugar de ontem. Vendia luvas. E óculos escuros.
- E o movimento?
- Devagar. Muito devagar.
Propus um novo golpe. Igual ao de ontem. Junior disse que aquilo não dava mais. Já estava manjado. A polícia estava de olho. Revistando geral.
- Porra Junior, se o golpe tá manjado hoje, já tava manjado ontem também. Que diferença faz um dia? Podia ter sido preso.
Fiquei puto. Saí andando. Junior me puxou pelo braço. O inglês dele, com sotaque de porto-riquenho, ficava mais confuso ainda quando ele falava rápido.

- Calma aí. Tem um que é infalível. Mas tem que ser rápido. 
- Então vai você. 
- Não posso, todo mundo já me conhece. É sujeira. 
- Porra, então quer dizer que andar com você é sujeira. Tô correndo risco de ser deportado andando com você?
- Relaxa, aqui ninguém me conhece.
- Todo mundo te conhece, ou ninguém te conhece? Decide porra! 
- Calma aí. Escuta! A gente vai até a porta da NYU. A universidade. Só tem filhinho de papai. Tudo otário metido a esperto. Na hora do movimento, quando todo mundo sair pra ficar do lado de fora, a gente vende trouxinha de maconha. Por dez dólares cada saquinho.
- Ficou maluco? Tráfico? Não suporto nenhum tipo de drogas! Vender então...
- Calma aí. A gente não vai vender maconha de verdade. É orégano. Como se fosse maconha. 
- Porra Junior, e isso por acaso é melhor? Tráfico, misturado com estelionato!
- Calma aí, eu sei como funciona. Se rolar um flagrante não dá pra enquadrar como tráfico. 
- Enquadra como o quê então? Pra mim tanto faz, vou ser preso e deportado!
- Calma aí, fica tranquilo. Ninguém vai pegar a gente.
- Então dessa vez quem vai é você.
- Mas sou mesmo que vou...
- Então pra que você precisa de mim?
- Você tem uma cara de polícia. 
- Porra Junior, cara de polícia? Sai fora! E que é que isso tem a ver?
- Calma aí, vai dar certo. 
- Calma aí o caralho! Só sabe falar calma aí?
- É pra espantar a concorrência. Você coloca uma jaqueta de couro de preta, uns óculos escuros esverdeados, faz uma cara de filha da puta e todo muito sai fora... tipo policial à paisana... você tem cara de quem trabalha pro DEA... narcóticos! conheço aqueles caras da NYU... morrem de medo de polícia! Você com essa barba aí vai ficar parecendo o Serpico, viu esse filme?
- Serpico, com Al Pacino, do Sidney Lumet! Claro que vi... nossa, você gosta de cinema Junior? Gosta dos filmes do Sidney Lumet?
- Quem? Calma aí cara, eu só vi o filme... o cara era um policial disfarçado... aí você já vem falar um monte de nome! Sei lá. O filme era legal, só isso que eu sei. Agora é hora de trabalhar, vambora!
- E o que é que eu faço?
- Nada, você vai ficar plantado em pé, olhando em volta. Quando a concorrência tiver ido embora por sua causa eu entro em cena. Vendo o bagulho rapidinho. Quando eu te der o sinal a gente sai fora. Entendeu?
- E o cheiro? Isso não vai dar certo. Orégano tem cheiro forte. Maconha também. Dá pra sentir a diferença. Ninguém vai cair nessa! Você vai acabar levando uns tapas!
- Calma aí. A gente lacra bem fechado. Num plástico apertado. Cansei de fazer isso. E aí, fechou?
- Puta que pariu Junior... Porra, que droga!!! Tanta gente no mundo e eu fui cruzar justo com você, Juan Ramon de La Concepcion... Tá bom, vambora. Mas se você me jogar numa roubada eu te mato, entendeu? Seu Juan Ramon de La puta te que pariu!!!! Eu te mato, entendeu? Seu porto-riquenho desgraçado, filho da puta do caralho!!!
- Assim que se fala, aí sim! Vambora levantar essa grana!!!
- Mas pera aí... eu tô pensando aqui... dez dólares cada trouxinha? Isso não vai dar porra nenhuma! É muito risco pra nada.
- Calma aí. A gente vende dez saquinhos em dez minutos. Faz cem dólares. E cai fora. Cinquenta pra cada! Só que tem que ser rápido, senão suja.
- Porra Junior, vender tudo em dez minutos? Impossível. Acho que não vai rolar cara, vou lá naquele russo pão-duro fazer umas entregas... ficar olhando pra aquela mulher dele gostosa...
- Confia em mim porra. Quer ser escravo de filho da puta? Aquele russo deve ter fugido da prisão... 
- Puta que pariu! Aquilo é pagar pra trabalhar... ex-comunista safado... Russo filho da puta! deve ter sido delator na época do Stalin! 
- Quem é esse cara?
- Tá bom, tá bom... esquece isso... Vambora. Que se foda. Se der merda eu nem te conheço!
Uma hora depois, dez trouxinhas de orégano prontas para serem vendidas. Réplica perfeita. Impossível notar a diferença. Chegamos até o ponto de venda. Fiquei um pouco afastado, como combinado. As pessoas realmente me tomaram por um policial à paisana. Ninguém se aproximava. A sensação era boa. Poder. Autoridade. Os traficantes locais foram saindo discretamente. A área ficou limpa. Só restou o Junior de vendedor. Os estudantes também não estavam confortáveis com a minha presença. Senti que estava empatando a transação. Tirei os óculos e fui comprar uma coca-cola ali do lado. Enquanto isso o primeiro cara comprou. Junior ganhou a confiança da rapaziada. Dez minutos depois, tudo vendido. Cem dólares no bolso. Saímos rapidamente. Minha perna tremia. Mão suada. Testa pingando. Coração disparado. Meu corpo todo tremia. De frio. Nervoso. Excitação. Corremos uma corrida sem fim. Paramos subitamente. Alívio. De repente uma gargalhada. Ri tanto que emendei uma tosse. Até ficar sem ar. Junior observava imóvel. Até que a risada contagiou seu corpo. O ataque de riso durou um pedaço de eternidade. Sentamos os dois no chão. A risada acalmou. Prazer. Vazio. Tristeza. Depois de alguns minutos no chão nos lembramos de sentir fome. Muita fome. Andamos até a Rua 46, a rua dos brasileiros. Entramos num restaurante típico. Comida do Brasil. Feijoada completa. Um guaraná pra matar a saudade. Depois caipirinha. Uma coxinha. Brigadeiro. Quindim. Fazia meses que não sentia o gosto do Brasil. Junior não conhecia comida brasileira. Parece que gostou. Comeu calado. Saímos bêbados de caipirinha. Caminhamos contra o vento cortante à beira da FDR drive. Frio. Tudo congestionado. Carros buzinavam. As primeiras luzes se acendiam nos prédios. Nos despedimos. Ele caminhou em direção ao Bronx. Eu fui para o Brooklyn. Atravessei a ponte a pé. Amanhã outro dia. Vida decente. Trabalho honesto. Emprego novo. Chega de golpes. Pensão silenciosa. Cansado. Dinheiro da condução separado. Mais um crime nas costas. Sem trocar de roupa. Dormi no corredor gelado. Amanheceu. Nunca mais soube do Juan Ramon de La Concepcion.


Nova Iorque, Soho
CARREGADOR DE MÓVEIS

O caminhão estava parado. Com os móveis. Na porta do prédio. Um loft no Soho. Proprietário esnobe. Móveis sofisticados. Éramos três homens. Contratados para descarregar o caminhão e organizar os móveis de acordo com as instruções do cliente. E um encarregado. Que dava as ordens e fazia o pagamento no fim do dia. Parecia fácil. Era só fazer força. Mas me faltava alguma coisa. Inteligência espacial. Calculava mal os ângulos. Fazia tudo do jeito mais complicado. Toda hora ficava com algum móvel preso na porta. Meus companheiros de trabalho eram do ramo. Faziam tudo com praticidade. Pareciam nem fazer força. Era no jeito. Eu fazia o triplo da força. E era bem mais lento. E mais perigoso. Sempre presto atenção em tudo. Gosto de ouvir conversa. E observar. Pessoas. Objetos. O dono do apartamento era professor universitário. Artes visuais. Muitos diplomas. Títulos. Obras de arte. Instalações. Gravuras. Telas. Esculturas. Fotos. Imagens. Figuras de corpos nus. Discos de Jazz. Tudo corria bem. Estamos quase acabando, até que um desafio. O loft tinha uma parte suspensa. O acesso era uma escada estreita. Deveríamos subir alguns móveis. E uma TV. Os móveis tudo bem. Mas a TV era praticamente impossível. Embutida num móvel pesadíssimo. Parecia um baú gigantesco. O encarregado veio ajudar. Mas não havia modo de fazer aquilo subir. Ficamos dois na base. Um no meio. O encarregado na frente. Suor escorrendo. Respiração ofegante. Músculos tensionados. Estava na base. Meu companheiro escorregou. Por um instante fiquei sozinho. Na parte de baixo. Poucos segundos. A TV quase me esmaga. Rapidamente recebi ajuda. Equilibramos a TV. Uma força estúpida nos fez empurrar aquilo pra cima. Conseguimos. Tudo intacto. Nenhuma baixa. Vinte dólares de gorjeta. Antes de sair, o dono do apartamento me chamou de lado. Olhou fixo. De onde você é? Brasil. Interessante. Seu sotaque. Pensei que fosse europeu. Quer ganhar cinquenta dólares por hora garoto? Cinquenta dólares? Por hora? Como assim? Sou professor de arte. Legal, e daí? Dou aula de pintura num ateliê. Sei. Aqui no Soho. Precisa de carregador? Não. Preciso de um modelo vivo. Hum... tem que ficar nu? Sim. Na maioria das vezes. Isso é putaria ou coisa séria? É arte meu filho! Eu sei, arte, esse é meu medo. Cinquenta dólares por hora! Aceita? Não, eu passo. Fica tranquilo garoto. É coisa séria. Quanto tempo? Duas horas. Às vezes três. E o que é que eu vou ficar fazendo nu esse tempo todo? Você fica mudando de posição. A cada dez minutos. Pode inventar a posição que quiser. A gente faz uns intervalos. Mas isso é confiável mesmo? Claro que é. A gente providencia tudo, um roupão, aquecedor portátil, tudo com muito respeito, muitos estudantes de arte fazem isso. E por que eu? Chama um estudante então! Você não entende disso garoto. Mas cinquenta dólares por hora, é isso mesmo? Sim, esse é o preço que se paga por aí, pode deixar que vai funcionar muito bem. E isso tem sempre? Três vezes por semana, mas sempre precisa de gente. Se você for bem, tem trabalho o tempo todo. Como assim ir bem? Não atrasar, não faltar, ter criatividade nas posições, esse tipo de coisa. Você não faz parte de nenhuma seita de tarados, pervertidos, clube fechado de voyeurismo, sadomasoquismo? Claro que não, sou professor de Filosofia da arte e Estética na NYU. Toma aqui meu cartão! Ok, foda-se! Aceitei o trabalho. Ainda fizemos mais duas mudanças até o final do dia. Dois endereços diferentes. Recebi cinquenta dólares do encarregado. Mais vinte e três de gorjeta. Setenta e três dólares. Onze horas de trabalho. Avisei ao encarregado que não voltaria mais. Amanhã cem dólares. Duas horas de trabalho. Nenhum golpe. Vida honesta. As coisas estavam começando a melhorar.