sábado, 16 de maio de 2015

Fora de escala

Gerard Philipe em Les Grandes Manoeuvres
Direção de René Clair
Prefiro surfar ondas grandes. Não por coragem. Só porque me permitem mais fluidez. Nunca me dei bem com ondas pequenas. Mas é uma exceção. Em geral prefiro escalas menores. Jogo melhor futebol de salão do que de campo. Fui campeão de futebol de botão. Sou melhor no squash do que no tênis. E melhor ainda no pingue-pongue. Piloto melhor uma bicicleta que um carro. Não que seja excelente nessas coisas. Apenas me viro um pouco melhor. Prefiro bossa nova a uma ópera. Al Green a James Brown. Gérard Phillipe a Marlon Brando. Audrey Hepburn a Angelina Joli. Albert Camus a Sartre. Machado de Assis a Guimarães Rosa. E Rivaldo a qualquer outro jogador de futebol que vi jogar. Gosto de pessoas que falam baixo. Seios pequenos. Movimentos contidos. Ruas estreitas. Quartos diminutos. Livros no bolso. Contos rápidos. Frases curtas. Ternos ajustados. Gravatas estreitas. Detesto sobras. Excessos. Fico perdido em multidões. Desapareço nas festas grandiosas. Dirijo mal em meio aos imensos viadutos. Prefiro andar a pé. Acho tudo fora de escala. Sinto às vezes que São Paulo vai me engolir. Tudo parece opressor. Carros, buzinas, vozes, avenidas, pessoas. Sinto tudo com lente de aumento. Amplificado. Transbordante. Uma folha caindo poderia me fazer chorar. Se eu chorasse. Mas raramente choro. Meu corpo é bruto. Minha pele é frágil. Não sei gritar. Talvez eu seja fora de escala.