segunda-feira, 18 de maio de 2015

Focos de favela? É isso mesmo?

Dona Maria na Rocinha - Foto Isabela Kassow
"Os mais pobres serão removidos para áreas periféricas. Uma nova distribuição terá lugar, segregando as pessoas em termos de diferenças de renda." (Milton Santos, 1975)

É assustador o tom fascista do editorial de O Globo intitulado "Favelização exige pulso firme do poder público". Lá pelas tantas, depois de afirmar que a solução para a questão da "favelização" no Rio de Janeiro é melhorar o transporte público das periferias até a Zona Sul, supostamente para que os trabalhadores de Ipanema e Leblon morem bem distantes desses bairros nobres, o editorialista saca do seu repertório, aliás de fazer inveja a Gobineau, a palavra "foco", para dizer que, "embora a área de favelas possa estar diminuindo, a existência de focos é inegável". 

Focos? Trata-se, então, para esse jornal, de uma infestação? E qual a solução para as favelas das periferias, de acordo com esse raciocínio? Após a remoção dessas populações para lugares afastados das áreas mais afluentes da cidade, o que fazer? Nada, pois nas periferias os "focos" podem se alastrar à vontade. A alegada preocupação ambiental em relação ao crescimento das áreas de favela mascara outros interesses ocultos. Os usos mais lucrativos do solo. A solução implícita: a expropriação. O objetivo futuro: a 'condominização' do território. O instrumento eficaz: a lei. 

Para esses editorialistas do Globo e similares, a cidade só tem relevância depois que você atravessa o túnel Rebouças, sentido Zona Sul. E os "focos" de especulação imobiliária que impedem uma política urbana inclusiva e eficiente? E os "focos" de "latifúndios improdutivos" que dominam a paisagem da Zona Sul carioca, como o Jockey Clube e o Gávea Golf Clube, que não servem para nada e desperdiçam espaços que poderiam ser utilizados para educação, cultura e lazer para todos, de forma inclusiva, mas que jazem irrelevantes e sem atender nenhuma função social da propriedade, preconizada pela Constituição Federal? Trata-se de um tema complexo, sem dúvida. Mas que tal abordá-lo tratando pessoas como pessoas? Já seria um bom começo.