segunda-feira, 18 de maio de 2015

Terceirizar para economizar

Linotipo
"Nos dias de hoje, a única informação confiável nos jornais é a data. E olhe lá". (José Silveira, ex-redator chefe do JB e da Folha de São Paulo)

A grande impressa continua firme em sua campanha a favor do Projeto de Lei sobre a terceirização. As imprecisões econômicas e históricas têm sido frequentes nos textos opinativos dos jornais. Mas dessa vez, o autor de um desses artigos confundiu-se nas questões de terminologia jurídica. O editorialista refere-se, durante todo o texto, ao PL (Projeto de Lei) como se fosse uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional). Parece que não se deu conta, em nenhum momento do texto, da diferença entre uma emenda constitucional e uma lei ordinária.

Quanto ao restante do editorial, o texto apresenta os clichês de sempre. Principalmente para chamar os críticos da terceirização de populistas retrógrados, que ficaram perdidos em algum lugar do passado. Aliás, populismo é um termo genérico que os conservadores sempre usaram para descredibilizar toda e qualquer política social. Redistribuição de renda, populismo. Inclusão social, populismo. Qualquer iniciativa de intervenção pública para corrigir falhas de mercado é tratada como populismo pelos mais variados tipos de comentaristas. De Arnaldo Jabor a Míriam Leitão, a lista é interminável: Diogo Mainardi, Nelson Motta e o guru liberal Rodrigo Constantino, só para citar alguns exemplos emblemáticos. 

No quesito economia/administração, mais uma vez o autor do texto não dispensa as expressões "técnicas". Faz uso indiscriminado dos clichês gerenciais para justificar o projeto, tais como "modernização", "eficiência", "competitividade", "maior segurança para o trabalhador" etc. A grande imprensa parece compartilhar uma espécie de banco de dados coletivocom termos econômicos genéricos, para conferir aos jornalistas uma aura de seriedade e conhecimento técnico. Os textos são sempre iguais. Os argumentos não mudam. Só varia o estilo do autor, que pode ser mais austero, mais histriônico, mais operístico, mais dramático, mais cômico, mais trágico, mais irônico, mais cosmopolita, mais provinciano, mais vulgar, mais tecnicista. Todos sempre cínicos.

Mas apesar da mesmice habitual, este editorial traz uma novidade interessante. Que são descuidados com os rudimentos da economia isso é notícia velha. No entanto, esse articulista vai um pouco além: mostra, sem nenhum pudor, seu desconhecimento sobre o processo legislativo brasileiro. Será que não existe um revisor ou consultor de textos no jornal, alfabetizado em direito constitucional, que possa explicar ao redator a diferença entre PL e PEC? Alguém que possa corrigir esse tipo de erro em benefício da boa informação ao leitor? 

Ou isso seria muito oneroso para o jornal e, portanto, contrário a uma gestão eficiente de custos? Será que o corte de custos na imprensa veio para ficar? Mas ao cortar custos em excesso a empresa sacrifica a "gestão da qualidade total", conceito caro aos magos da moderna administração (embora seja um conceito da década de 1950). Talvez por isso estejam tão ansiosos para que a terceirização seja aprovada. Assim poderão terceirizar revisores de texto e consultores de gestão. E manter a boa e velha política de redução de custos. Nada como eficácia e eficiência. Juntas. Lembrando que, em administração, eficácia é fazer a coisa certa. E eficiência é fazer certo a coisa.