segunda-feira, 18 de maio de 2015

Economia da linguagem


1962, bloqueio naval durante a crise dos mísseis
"Isso não é um bloqueio naval. Isso é linguagem. Um novo vocabulário que o mundo jamais viu. É o presidente Kennedy se comunicando com o secretário Kruschev." (Robert McNamara, durante a crise dos mísseis em 1962, em diálogo extraído do filme 'Treze dias que abalaram o mundo') 

A escolha do Ministro Levy não foi econômica. Foi linguagem, tal como na cena do filme que retrata um dos momentos mais tensos da guerra fria. É a presidente Dilma se comunicando com o mercado para acalmar os ânimos dessa gente implacável que vive de expectativas futuras, lucros presentes e acumulações passadas. Gente que não tem a menor cerimônia em destruir as bases econômicas de um país. Balela essa história de que a situação econômica brasileira já estava crítica em razão da má gestão dos gastos públicos no primeiro mandato da presidente Dilma. A economia estava como sempre esteve, não muito diferente de qualquer outro momento anterior no Brasil recente e tampouco diferente dos países mundo afora, desenvolvidos ou em desenvolvimento. 

O mundo da economia mudou, embora as ideologias continuem as mesmas. Não é mais como a padaria, a pequena oficina, a fábrica de pequeno porte, todos em perfeita concorrência caminhando para o equilíbrio de mercado, o preço justo, o pleno emprego, numa perfeita harmonia entre oferta e demanda, sem fricções, cuja riqueza depende do esforço individual e da frugalidade dos agentes, como pensou Adam Smith no final do século XVIII. Na verdade esse mundo nunca existiu a não ser nos manuais de microeconomia. E hoje, mais do que nunca, esse mundo não explica nada. Gastar e consumir é a regra. E obter ganhos financeiros, a regra de ouro. Não é mais a poupança interna que determina o investimento. É a confiança. E toda a economia do mundo funciona à base de confiança e, portanto, de endividamento. Dos EUA à China. Da manicure ao magnata. Uns lucram com o endividamento, os 1% mais ricos do mundo, outros perdem e vão rolando a dívida. A maioria nem se dá conta, desde que esteja comprando o novo iPhone e pagando a prestação do carro. Mas a realidade é que não existe mais o fundamento de que os investimentos são feitos em razão dos níveis de poupança de um país. Isso acabou.

Os investimentos são feitos à base de crédito, de confiança, haja poupança ou não. Com a desregulamentação financeira, o fim do padrão-ouro, com a moeda se tornando algo apenas escritural, um impulso eletrônico, os níveis de poupança internos não fazem mais sentido. A teoria econômica de hoje explica um mundo que já acabou. E o ajuste fiscal nada mais é do que uma espécie de "seguro" para que os juros sejam pagos em dia e as transferências de riqueza, dos mais pobres para os mais ricos, se deem com risco mínimo. Mas não segui-lo de forma ortodoxa tem seu preço. Não por seus efeitos econômicos diretos, que seriam até positivos. Não. O preço é a chantagem do mercado, dos meios de comunicação, do grande capital e dos políticos que o representam. Com essa gente não se brinca. Eles podem virar, e viram mesmo, um país de cabeça para baixo em poucos dias. 

O desafio agora é aguentar o tranco. Mas o capital não fica parado por muito tempo. Uma melhora no cenário externo e interno está a caminho. Em breve, haverá condições para que o governo consiga fazer a transição para uma política econômica que realmente beneficie o país. Um conjunto de políticas públicas eficazes deveria começar com as seguintes ações:

- Redução da SELIC para 8%. 
- Direcionamento de empréstimos do BNDES para investimentos produtivos, estímulo à inovação e desenvolvimento de tecnologias em setores intensivos em mão de obra 
- Reforma tributária, com a implementação do Imposto sobre grandes fortunas, heranças, transações financeiras e transferências internacionais.
- Manutenção do câmbio em torno de R$ 3,00 para favorecer as exportações e equilibrar o balanço de pagamentos.
- Reforma agrária, com estímulo à agricultura familiar, produção de alimentos em cadeias produtivas locais.
- Implementação de um sistema de auditoria da dívida pública, para identificar quem efetivamente ganha e quem perde com o endividamento interno e como reduzi-lo. É sabido que os principais beneficiários da dívida interna são os grandes bancos e investidores nacionais e estrangeiros. A destinação dos recursos orçamentários para o pagamento da dívida não condiz com a Constituição Federal, uma vez que sacrifica direitos humanos e sociais.

Levar essas agendas a sério já seria um bom começo para 2016. É sempre bom começar o dia com alguma utopia. Ainda que seja apenas para "continuar a caminhar".