sábado, 16 de maio de 2015

A redescoberta do Brasil

Desembarque de Cabral em Porto Seguro
Oscar Pereira da Silva, 1904
"Existe um conjunto de informações e conhecimentos básicos necessários para um entendimento mais profundo das vantagens e limitações da análise de balanços." (Sérgio de Iudícibus, professor titular aposentado da FEA/USP)

Finalmente o brasileiro descobriu que a corrupção não é causa de si mesma. Entendemos agora que a corrupção é desencadeada por alguma coisa externa a ela. Há, portanto, um corruptor e um corrupto que causam a corrupção. Sem o concurso de ambos, não há corrupção. Um avanço cognitivo sem precedentes na nossa história. Quase uma redescoberta do Brasil.

Mas ainda não há certezas entre nós brasileiros quanto ao fato de a corrupção e, consequentemente, os corruptores e os corruptos existirem desde muitos séculos atrás na história, desde os tempos do Brasil colonial. Há os que defendem esta hipótese e outros que a negam, certos de que a corrupção em nosso país data de uns doze anos para cá. Quanto à extensão da corrupção, também há muitas dúvidas. Há aqueles que julgam a corrupção ser um problema localizado nas instituições públicas. 

Outros entendem ser um problema mais amplo, que afeta instituições públicas e privadas. E quanto à corrupção estar aumentando nos últimos anos ou se ela está apenas mais visível, também há controvérsias. O mais provável é que ambas as hipóteses estejam corretas: a corrupção está aumentando e está mais visível. Mas a única certeza é de que a corrupção existe e de que há corruptores e corruptos. E em escala industrial. Culpa de haver mais pessoas no mundo, diria Malthus.

Esta constatação talvez nos leve a concluir que estejamos precisando mais de auditores do que de economistas no Brasil. Quanto mais nos afastamos da moral e da ética nas condutas individuais, mais necessitamos de fiscalização e controle. Uma sociedade cem por cento pautada na boa conduta ética dispensaria auditorias, multas, radares, alarmes, fiscalizações e, em última instância, todos os aparatos repressores e coercitivos. Mas não é assim que a vida se manifesta em sociedade. Precisamos de monitoramento e controle. Precisamos ser auditados. 

Segundo Stephen Kanitz, professor de Contabilidade da FEA/USP, as nações com menor índice de corrupção são as que têm o maior número de auditores e fiscais formados e treinados, e aponta como exemplos a Holanda e a Dinamarca. As estatísticas mostram que o Brasil é um dos países menos auditados do mundo e com um número incrivelmente baixo de profissionais que exercem a função de auditor. Talvez tenha chegado a hora de mudarmos esse cenário. Quem sabe seja o momento de um novo paradigma que pudesse ser expresso na frase: Brasil, o país da auditoria. Esqueçamos por alguns momentos a economia e sua importância quase hegemônica na sociedade brasileira. 

Imagine um Ministério da Auditoria, que englobasse a Controladoria Geral da União e que tivesse mais relevância política que o Ministério da Fazenda, e cujo ministro fosse a grande vedete da gestão pública. E que isso fosse estendido aos estados e municípios. Os melhores salários, as melhores carreiras estariam nas áreas de auditoria. Pense na grande imprensa, nos principais jornais com colunas especializadas em auditoria, jornalistas comentando detalhadamente e com didatismo como a OGX inflou seus resultados para que suas ações subissem de valor ou como o balanço de determinada empresa “y” não estava de acordo com as normas internacionais de contabilidade. 

Uma Míriam Leitão da Auditoria, um Carlos Alberto Sardenberg da Contabilidade, um Merval Pereira especialista em políticas contábeis. Até Nelson Motta e Arnaldo Jabor oferecendo ao grande público seus palpites sobre as melhores práticas de contabilização do arrendamento mercantil, discutindo se o leasing deveria ser contabilizado como despesa operacional ou ativado no permanente e baixado de acordo com sua vida útil, via depreciação, baseado no princípio contábil da essência sobre a forma. Eletrizante, não é? Revistas semanais de grande tiragem, que explicassem para o público leigo, as normas do International Accounting Standards Board - IASB (Comitê de Normas Internacionais de Contabilidade). E uma espécie de revista Veja da contabilidade e auditoria, especializada em escândalos e fraudes contábeis. 

Especialistas formadores de opinião falando ao Jornal Nacional todas as noites, comentando sobre o descumprimento dos princípios de governança corporativa de uma empresa de grande porte ou sobre ou a falta de transparência das demonstrações contábeis da prefeitura de um certo município. Imagine pessoas nos bares, bebendo tranquilamente suas cervejas e comentando com amigos sobre a necessidade de se fazer um teste de impairment nas demonstrações financeiras de uma multinacional do setor automobilístico, para melhor evidenciar sua capacidade de honrar seus compromissos de curto prazo e ajustar seus ativos ao fair value

Ou um bate-papo delicioso sobre como os índices de liquidez da Petrobras podem impactar sua política de distribuição de dividendos. Não seria excitante? Rapidamente surgiriam comentaristas de auditoria com o pensamento de esquerda, que entendem que o Estado deveria intervir mais nas questões técnicas de auditoria, afinal trata-se de uma atividade cujo funcionamento não pode ser submetido livremente às forças de mercado. 

Em contrapartida, os comentaristas de auditoria mais alinhados à direita entenderiam que questões técnicas não devem ser contaminadas com questões políticas e que a auditoria deveria ter a sua própria lógica interna, baseada em princípios absolutos e universais, derivados da “ciência auditorial” e que, portanto, o papel do Estado na auditoria deveria ser reduzido ao mínimo.

Discutiríamos apaixonadamente sobre a globalização da auditoria. E na vinheta da rede Globo, o slogan seria: “auditoria, a gente vê por aqui”. E para confirmar a transição de paradigma, quando um pai perguntasse ao filho:
- O que você vai ser quando crescer, filho? 
– Auditor, pai.
E o pai, com lágrimas nos olhos:
- Esse é o meu garoto! vai ser o orgulho da família...
Chegado este momento, finalmente nos veríamos bem preparados para combater toda e qualquer corrupção neste país. Enfim, haveria uma cultura de auditoria, tal como na Holanda e na Dinamarca. A única pergunta que resta, num mundo assim, em que os gênios da economia são igualados em seu prestígio e poder pelos enfadonhos auditores é a seguinte: quem auditaria os auditores?