segunda-feira, 18 de maio de 2015

Democracia envergonhada

Manifestações em 1964
"Quanto à pregação de golpe militar, que  configura proposta de subversão da ordem constitucional, é crime previsto na Lei de Segurança Nacional, que, embora feita durante a ditadura, não foi revogada." (Dalmo de Abreu Dallari)

A Constituição Federal do Brasil não prevê intervenção militar. Logo, os movimentos que clamam por uma intervenção militar constitucional encerram uma contradição lógica. Se é intervenção militar, não há como ser constitucional. Só pode ser inconstitucional.

A propagação destes movimentos é um dos efeitos colaterais das recentes manifestações democráticas, em verde e amarelo. Na Avenida Brasil,
 no Rio de Janeiro, há dezoito faixas ao longo da avenida com a seguinte frase: Intervenção Militar Já! E pensar que houve uma luta de vinte e um anos para que o país se tornasse uma democracia, ao custo de muitas vidas perdidas, destruídas, desperdiçadas e suicidadas. E ainda há quem diga que é um movimento minoritário e irrelevante. Foi assim há cinquenta anos. Começou minoritário e irrelevante. Éramos o país da bossa nova, do cinema novo, do teatro politizado, do desenvolvimentismo progressista, dos intelectuais mais notáveis, sociólogos, historiadores, poetas, literatos, artistas. 

Éramos o país de Carlos Drummond de Andrade, Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda, Augusto Boal, Oduvaldo Vianna Filho, Gláuber Rocha, Guarnieri, Antônio Cândido, José Celso Martinez Correa, Dias Gomes, Gilberto Freyre e tantos outros. E mesmo assim, naqueles tempos sucumbimos por uma onda de conservadorismo e terror extremos. Por que não poderia acontecer novamente? 

Hoje, não somos nada melhores do que nossos brasileiros mais ilustres do passado. Nossos heróis de agora, nossas referências, são as celebridades milionárias. Em vez Sartre e Simone, o casal que representa melhor nosso ideal de sucesso e vida bem vivida é Luciano e Angélica. Revistas fúteis. Pensamento único na grande imprensa. Intelectuais de fast thinking, escritores de autoajuda, cinema irrelevante, ídolos do stand up comedy, psicólogos de folhetim, cultura popular moribunda, evangelização das crenças. Difusão. Confusão. Celulares. Antenas. Nas telas, Datenas. Nos lares, novelas. Nas janelas, panelas. Passado sem memória. Presente sem poesia. Futuro sem fantasia.

A história é um pêndulo. Só existe linearidade em nossos pensamentos. Quem poderia imaginar a ascensão do nazismo e do fascismo depois de quase três séculos das primeiras luzes do Iluminismo? Infelizmente esse tipo de reivindicação já não choca mais ninguém. Racismo, xenofobia, fascismo, demonstrações de ódio e intolerâncias já se naturalizaram em nossos sentidos. Não provoca nenhuma reação. Nem mesmo naqueles que se dizem democratas. Estamos quase todos anestesiados. Hora de sair do transe. Antes que sejamos atropelados pelo bonde da história. E o futuro seja ainda mais sombrio que as sombras do passado.