sábado, 16 de maio de 2015

Débito ou crédito?

Entro numa livraria e peço ao vendedor o livro do Piketty, O Capital no Século XXI. Depois de alguns instantes, o vendedor volta com o livro. Livraria pequena e vazia no Shopping da Gávea. Só um vendedor na loja, que também é quem opera o caixa. Enquanto caminhamos até o caixa ele comenta que esse livro está vendendo bastante. Para dar continuidade à conversa, pergunto:
- Você já leu?
- O quê? Esse livro?
- É...
- Não, sou estudante de artes cênicas... economia não tem nada a ver com minha área de estudo. 
- Artes cênicas? e onde você estuda?
- Escola Wolf Maya... meu sonho é ser ator. 
- Bacana, também sou ator...
Ele me olhou detidamente e me respondeu:
- Nunca te vi na televisão... você tem DRT e tudo?
Respondi que tinha DRT mas que na televisão ele provavelmente nunca teria me visto mesmo. E talvez em nenhum outro lugar. Curioso, ele me perguntou por que eu estava comprando um livro sobre economia. Disse ao jovem estudante, quase paternalmente, que um ator deveria se interessar pela vida. Acrescentei que todos os assuntos relativos à sociedade em que ele vive deveriam fazer parte do seu repertório:
- A matéria-prima do ator é a vida, tudo interessa!
E ele insistiu:
- Mas logo economia?
- Pois é... tenho mania desse assunto... e de filosofia também!
- Mas qual a utilidade pra um ator, economia?
- Qual utilidade? ... bom, se você vai fazer uma peça, por exemplo “A morte de um caixeiro viajante”, do Arthur Miller, já leu?
- Não, mas já ouvi falar!
- Então, continuei didaticamente - se um dia você for fazer essa peça e não tiver nenhuma noção do funcionamento de uma economia de mercado, do conflito de interesses entre empregado e empregador, esse tipo de coisa... o texto perde muito da sua força. 
Continuei num tom professoral:
- Quando o protagonista é demitido, depois de dedicar sua vida inteira a uma empresa, se você nunca se interessou por economia, vai parecer apenas que o chefe é cruel, maldoso... o que pode até ser também... mas o principal é que esse chefe está jogando o jogo do mercado, fazendo o que é esperado que ele faça, segundo a lógica dos negócios... fazendo o que toda empresa faz pra continuar competitiva... pro chefe, a demissão é uma banalidade... é a vida como ela é... essa é a crueldade maior da peça... sem o contexto histórico e econômico da época, essa peça não diz muita coisa, fica reduzida a um drama bem construído, mas desconectado do mundo. E dependendo da tradução que você ler, nem isso.
- Ah, mas é uma peça né? eu tô estudando pra ser ator de televisão e cinema.
- Entendi...
- E depois eles já passaram muita coisa pra ler esse ano!
- Hum... e tem que ler o quê?
- Um livro do mestre Stanislavski, a nossa "Bíblia"... e um outro chamado O Corpo Fala, que é super complicado... fora que sempre tem alguma cena pra apresentar, decorar um monte de texto, fica tudo muito corrido... 
- Puxado, né? ...vou levar o livro!
- Débito ou crédito?
- Débito.
- Presente?
- Não, pode ser também sem a sacola... vou levar na mão... pode cancelar minha via do cartão.
- Obrigado, volte sempre.
- Obrigado... boas leituras! 
- Pra você também! e sorte na carreira, disse o vendedor sorridente.
- Valeu, ando precisando de sorte mesmo.