segunda-feira, 18 de maio de 2015

Faxina pós-moderna

Joseph Beuys felt joseph beuys
Caminho pelo centro da cidade do Rio de Janeiro. Mato o tempo, enquanto o tempo me enterra, como dizia Machado de Assis. Entro no Centro Cultural da Caixa Econômica Federal. Ao chegar nas salas de exposição, há duas opções. Uma sala bastante movimentada e, ao lado, uma outra vazia. Atraído pelo silêncio e pela minha tendência à introspecção, escolho a sala vazia. A luz é fraca, sombria e misteriosa. Ando lentamente pelo espaço. Absorto pelos objetos de plástico espalhados ao redor da sala, começo a fazer reflexões das mais variadas. Penso na banalidade da vida, na descartabilidade das coisas, no colapso ambiental, na falta de ordem do universo, no vazio das relações humanas, sempre mediadas por objetos sem valor. No meu percurso, quase tropeço num balde de plástico. Observo alguns pedaços de madeira, panos retorcidos, objetos cobertos por sacos de lixo. Associo o que vejo aos trabalhos de Joseph Beuys, de quem assisti a uma exposição na década de 1990, no tempo em que frequentava a escola de circo em Paris. Não era uma instalação bonita. Mas sem dúvida intrigante. Começo a escrever algumas frases no meu caderno de anotações. Já quase hipnotizado, sou interrompido bruscamente por uma voz feminina vinda de trás.
- Senhor, essa sala tá fechada pra reforma... o senhor não pode ficar aqui não, a gente tá fazendo faxina aqui.
Era uma senhora de uniforme cinza, com uma caixa de materiais de limpeza nas mãos. Ao seu lado, um sujeito também de uniforme carregando uma escada. Antes que eu respondesse, ela continuou.
- O menino da segurança deve ter esquecido a porta aberta...
- Ah, desculpe, eu... eu tava procurando o banheiro... acho que errei de porta.
- Tem problema não... o senhor sai por ali... é a segunda porta à direita, lá no final do corredor.
- Muito obrigado.
Na arte, sempre preferi os modernos ao pós-modernos. E os clássicos aos modernos. Saí pelo corredor. Mesmo sem vontade, fui até o banheiro. Entrei por engano no feminino.