sexta-feira, 22 de maio de 2015

Amor ao mais próximo, ódio ao mais distante

Inquisição espanhola, Circa 1500 - Hulton Archive
"A velha lei do olho por olho, deixa todo mundo cego.” (Martin Luther King)

O outro lado da violência urbana, igualmente trágico, é ver pessoas fazendo apologia contra as comissões de direitos humanos. É, no mínimo, um desconhecimento da história da humanidade. História recente no Brasil, como foi o caso das torturas nos tempos da ditadura militar (e ainda hoje em nossos presídios), História atual em certos países, cujas violações aos direitos humanos ainda são recorrentes.

Já imaginou ser condenado sem o devido processo legal, estar sujeito a torturas, a fogueiras, linchamentos, apedrejamentos, a campos de concentração? A história nos oferece inúmeros exemplos. Pessoas já foram mortas na fogueira e, ainda o são, como no caso do Estado Islâmico, por total violação aos direitos humanos, por motivos irrelevantes, como pertencer a outra etnia, possuir outra crença religiosa ou apenas ter visões de mundo diferentes

É triste observar que grande parte da comoção em razão do homicídio na Lagoa Rodrigo de Freitas, ocorrido em maio deste ano na Zona Sul do Rio de Janeiro, nada teve a ver com compaixão, com solidariedade ao sofrimento alheio, com respeito à vida humana. Trata-se, muito mais, de um sentimento de vingança, de ódio e ignorância. Uma reação ilegítima, sem nenhuma relação com a preservação da vida e da integridade humana.

Ninguém sofre por ninguém. Pouco importam mortes, assassinatos, crimes violentos. O que está em jogo é a proximidade de certas pessoas, que destilam ódio publicamente, com a situação da vítima. Proximidade socioeconômica. Em outras palavras, a comoção tem a ver apenas com o fato de que o crime poderia ter acontecido contra "alguém como eu". Poderia ter sido com "um familiar, um amigo próximo, ou comigo mesmo". 

A proximidade social é a causa da comoção. Não se trata do local, nem do tipo de crime, nem do instrumento utilizado para matar, nada disso é importante. Se fosse no mesmo local, com o mesmo instrumento, mas a vítima fosse de uma outra classe social ou de uma outra nacionalidade, não haveria nenhuma comoção. Nenhum clamor popular. Nenhuma empatia. Nada. Apenas a indiferença e o egoísmo de sempre.