sábado, 16 de maio de 2015

Amores sólidos em tempos líquidos

Gustav Klimt - O beij----------
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Tudo me escapa quanto mais a distância se perde no espaço e seus movimentos despertam meus sensos e me destempero quando sua pele se aproxima da minha pele e sinto sua respiração, irregular, invadir meus poros e seus contornos e contradições se dissolvem na minha história, tão breve, e entro dentro do seu corpo, pelas bordas, e me desatino com a irrelevância de todo o resto, uma conexão improvável altera a lógica do encontro, os sons se misturam com o calor do toque irremediável, que reluta e resiste, até que tudo se confunde e se funde em um, o incontrolável invade, e ante ao menor afastamento, seus movimentos me resgatam, me salvam da minha trivialidade e eu retorno impassível, com a força de um único sentido, tateando, observando as sombras das curvas e o prazer do instante que se recusa a ser subjugado pela carne tão fraca, mas que está por toda parte, e finalmente se entrega, sem trégua, unindo braços, entrelaçando pernas, desfazendo a solitude, na expressão de um beijo úmido, que não foi dado, ausente, reverberando na aceleração dos corações, às vezes partidos, mas inteiros por incompletos, que revivem e vivem do prazer daquele um instante, sem referências, sem passado, sem reflexão, só o gozo da hora, naquele toque sem retoques e emendas, que dura o tempo de agora e vale a pena toda espera, de uns únicos segundos.
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Minha musa

Teu rosto
Meu desejo
Teu gosto
Minha casa
Teu porto
Meu destino
Teu corpo
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Só tenho o prazer
De voltar ao começo 
Mas chego ao meio
Do teu seio
Devaneio...
Entre tuas pernas
Sem estar, em nenhum lugar
Espero, desespero
Nada demais
E permaneço, sem saber ser
Um endereço, uma rua
Sem fim
Nem começo
No teu corpo
Assim...
Desse jeito, rarefeito
Desajeitado, em volta
Da vida, que não esgota
Nem uma gota
E inteira, sem nada em troca
Se alimenta, desse desejo
Tão sem fim
Nem volta
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Não é lembrar o que se viveu antes que massacra os ossos.

Nem a tristeza de não ser mais agora que devora a pele.
É a saudade que mais demora de tudo que viria depois.
Naqueles anos todos que seriam delicadamente nossos.
Mas que nunca chegaram a ser por um instante de nós dois.
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Tenho múltiplos interesses. Meu cérebro passeia por tantas áreas. Da astronomia à gastronomia. Numa velocidade espantosa. Caleidoscópica. Voo rasante sobre arte, ciência, filosofia, estupidez. Emaranhado em ecologias, economias, músicas instrumentais, geometrias fractais, cálculos diferenciais e integrais, tensões sexuais. Perdido pelo mundo. Cinema mudo, lutas de vale-tudo. Xadrez, francês, espanhol, futebol, direito ambiental. Até contabilidade social. São tantas rotas, itinerários, contas a pagar. Meu cérebro não para. A não ser quando escrevo. Porque escrevo só. Só com o coração. Lá onde toda minha trivialidade fica exposta. Onde tudo é tão irrelevante. Exceto o amor. Quando escrevo, só existe o amor. E do amor, não compreendo quase nada.
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Revelo escombros 
E me escondo
Em tantos outros 
Que não sou 
Só uma beirada
Na noite virada
Não é outono
Perco o sono
À prestação 
E sem ação
Nada presta de mim
Da vida emprestada
Que de fim em fim
Chega afinal 
A ninguém
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Nasci na madrugada
Cresci por toda parte
Mudei a cada instante
Troquei de cidades
Identidades
Procurei o amor
Conheci a dor
E o prazer
De esquecer
Fui de tudo quase
Nada de quase tudo
Antes de começar
Insisti em desistir
Desperdicei 
Patrimônio
Renda
Pessoas
Não retive nada
Cheguei a lugar nenhum
Deixei o tempo pra trás
Voltei ao início
Não encontrei o fim
Recomecei o futuro
Renasci na madrugada
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Memorizei tuas curvas
Decorei teu andar
Imaginei tua boca
Procurei tua pele
Absorvi teu calor
Percebi tua dor
Ignorei teus sinais
Sonhei o teu corpo
Revivi minha busca
Inventei nosso amor
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segui tua sombra
de olhos fechados
mirei teu reflexo
nas águas da chuva
misturei tuas imagens
entre sons e sonhos
guardei teus contornos
esqueci os caminhos
varei pelo dia
invadi tua noite
encontrei uma rua
não havia ninguém
mirei meu reflexo
guardei meu olhar
fechei minha porta
abri os meus poros
segui minha sombra
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o tempo dos teus olhos
é o tempo do meu olhar
o ritmo dos teus poros
é o ritmo do meu sopro
o som da tua sombra
é o som do meu desejo
a dor das tuas curvas
é a dor do meu silêncio
e na cor da tua memória
vive a cor do meu amor
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Aproximo meu corpo
Encontro teu rosto
Afasto meus receios
Adormeço em teus seios
Esqueço de sonhar
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e se for uma cor
não sei
e se for uma luz
talvez
e se for uma estrela
a mais bela
e se for uma dor
já passou
e se for um amor
Isabela
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o sol iluminou a lua
em retribuição
a lua refletiu o sol
lua e sol... sol e lua
unidos em eterna solidão
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teu corpo
molhado
liberta
minhas teias
até alcançar
o irreversível
anoitecer
do último
desejo
meu corpo
faminto
contorna
tuas veias
até descansar
no invisível
entardecer
do último
amor
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Exausto
De tanto
Partir
Exausto
De tanto
Vagar
De repente
Uma vontade
De chegar
E descansar
Em você
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Entrar sem absorver
Tocar sem obstruir
Desejar sem consumir
Conhecer sem desvendar
Perceber sem revelar
Olhar sem intimidar
Proteger sem aprisionar
Aproximar sem invadir
Afastar sem perder
Ser sem pesar
Estar sem anular
Ter sem possuir
Amar sem te perpetuar
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Na véspera da espera
A madrugada alada
Vagueia calada, só
Ao encontro dos 
Corpos,  nus
Tatuados no vento
A dor à flor da pele 
De tanto, tanto amar
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No calor do beijo
De perto provoca
Tons de desejo
E com as mãos
Pequenas
Pétalas
Pedem proteção
Em sons de beleza
Não há mais certeza
Quando já em chama
Emana o instinto
Provoca vontade
Chama a saudade
De toda ternura
Que só cabe perfeita
Numa única criatura
Chamada você
"(...) não há nada maior quando temos a verdadeira ternura e a verdadeira sensualidade numa mesma criatura". (O amante de Lady Chatterley, D. H. Lawrence)
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Caminhos ocultos
Jardins secretos
Olhos despertos
Fontes abertas
Desejos, esperas
Textos, texturas
Tonalidades
Temperaturas
Sobressaltos
Desconcertos
Portas amarelas
Que transbordam
Poetas perdidos
Paraísos inquietos
Caravelas errantes
Em cores distantes
Escrevo no escuro
Respiro no vento
Da tarde noturna
Som da madrugada
Eternidade do dia
Que nasce e para
Só pra inventar
Tua presença
Em mim
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Flutuante
O sol
Esquenta
O sal
Mistura
Na Pele
Molhada
Com brisa
De leve
A marola
Esconde
Uma concha
Escorrega
Na areia
E vira
Sereia
Que rouba
Um beijo
De vento
Soprado
No mar
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O vento cortante
A cidade vazia
Poucas luzes
Rua deserta
Noite tão fria
Escrevo no escuro
Caminho no tempo
Não tenho nada
Nem sede
Nem fome
Nem sono
São poucos de mim
Talvez nenhum
Seus olhos me olham
Mas deixo passar
Até nunca mais
Preciso viver
O próximo instante
E se só houvesse palavras?
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Por você
Meu amor é
Tronco forte
Sol ardente
Grão paciente
Sombra protetora
Espinho ciumento
Caule generoso
Tempo infinito
Vento afoito
Atrás de você

Por você
Meu amor é
Firme igual raiz
Fértil como terra
Leve igual uma folha
Livre como uma pétala
Detalhado igual a flor
Simples como a cor
Dedicado e delicado 
Igual a você
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Dissolver o corpo nos corpos, expostos
escorrer pelas entranhas, estranhas
pulsar por todas as veias, alheias
misturar secreções secretas, inquietas
juntar salivas diversas, dispersas
trocar suores esquecidos, desconhecidos
derreter sem reter, tudo que é sólido
e só desmanchar no ar
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Fui com tanta sede, até te exaurir. 
E da tua exaustão, se fez minha aridez. 
Exausto, sem uma gota, me esgoto. 
Incerto, eu deserto. E te liberto.
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Quando ama, deseja
Quando deseja, afasta
Quando afasta, aproxima
Quando aproxima, corrompe
Quando corrompe, trai
Quando trai, destrói                    
Quando destrói, sofre
Quando sofre, exaure 
Quando exaure, esgota 
Quando esgota, acaba
Quando acaba, recomeça
O amor é uma selvageria
----------.
Teus olhos 
Fixos
Olham
Incertos
E se despem
Nos meus 
Olhos

Meus olhos
Nus
Olham
Inquietos
E se acalmam
Nos teus 
Olhos
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Teus olhos
Não são 
Verdes
Azuis
Castanhos 
Ou negros
São apenas
Teus olhos
Que irradiam
Todas as cores
Silenciam
As vozes
Emudecem
As palavras
Confundem
Os sentidos
E num relance
Apagam
Tudo em volta
Que não são
Teus olhos
----------.
Teus olhos 
Na luz
Da noite leve
Leva a noite
Ao instante breve
Dos meus olhos
Há tantos anos
Apressados
Insanos
E os faz parar
Só pra olhar
Sem pudor
Com tanto amor
O amor
Que se esconde
Na luz
Dos teus olhos
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Só tenho o prazer
De voltar ao começo 
Mas chego ao meio
Do teu seio
Devaneio...
Entre tuas pernas
Sem estar, em nenhum lugar
Espero, desespero
Nada demais
E permaneço, sem saber ser
Um endereço, uma rua
Sem fim
Nem começo
No teu corpo
Assim...
Desse jeito, rarefeito
Desajeitado, em volta
Da vida, que não esgota
Nem uma gota
E inteira, sem nada em troca
Se alimenta, desse desejo
Tão sem fim
Nem volta
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PAI E FILHA. Sempre que encontro Beatriz o coração dela dispara no abraço. E fica acelerado um tempo. O meu quase para. Só pra escutar o dela. Até que os dois corações se equilibram. Entram no mesmo compasso. Que fica retido na memória. Essa é a nossa linguagem.
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AS MULHERES. Fui criado por mulheres. As mulheres me deram tudo. Carregaram-me no ventre. Sofreram as dores do parto. Ensinaram-me a andar. Falar, ler e escrever. Fizeram minha comida. Arrumaram minha cama. Pregaram meus botões. Pentearam meu cabelo. Passaram minha roupa. Contaram histórias. Faziam-me dormir. Mostraram-me a beleza. A literatura, a poesia, a música. Deram seus amores. Partilharam suas dores, seus temores, suas camas. Ofereceram seus sorrisos. Acolheram meu corpo. Entregaram seus corpos. Gestaram meus filhos, em seus ventres. Criaram meus filhos, em suas casas. Deram-me seus próprios filhos, mesmo quando não eram meus. Abriram seus espaços. Confiaram suas vidas. Suportaram minhas ausências. Toleraram minha presença. Ficaram sempre ao meu lado. Pediram tão pouco em troca. Eu me dei inteiro. E dei quase nada.
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MATERNIDADE. Acorda, levanta, alimenta, ensina, leva, traz, orienta, arruma, penteia, bronqueia, organiza, sofre, endurece, enlouquece, agrada, amolece, cobre, protege, esquece, aborrece, aquece, chora, enfurece, enternece, explica, repete, acolhe, perdoa, defende, grita, irrita, sorri, abriga, prepara, transforma, acompanha, espera, alegra, estimula, engrandece, ajuda, cuida, apoia, encoraja, reclama, chama e ama ama ama...