segunda-feira, 18 de maio de 2015

Veja bem...

"A violência simbólica é uma violência que se exerce com a cumplicidade tácita dos que a sofrem e também, com frequência, dos que a exercem, na medida em que uns e outros são inconscientes de exercê-la ou de sofrê-la. A sociologia, como todas as ciências, tem por função desvelar coisas ocultas. Ao fazê-lo, ela pode contribuir para minimizar a violência simbólica que se exerce nas relações sociais e, em particular, nas relações de comunicação pela mídia." (Pierre Bourdieu)

A tragédia da Revista Veja e similares não está nos conteúdos publicados. Afinal, a liberdade de expressão, atendidos alguns pressupostos mínimos de respeito à dignidade humana, deve ser respeitada.  A tragédia tampouco está nos argumentos utilizados pelos seus articulistas, eivados de lugares comuns e irracionalidades, quase sempre sem nenhum rigor formal e cujas conclusões raramente derivam das premissas. Não há nenhuma tragédia nisso. Tampouco é trágica a falta de embasamento técnico demonstrado em matérias sobre assuntos mais complexos, como economia, administração pública e privada, direito e, agora, contabilidade. 

O nível de conhecimento apresentado nessas áreas está em conformidade com o pensamento médio de grande parte da sociedade brasileira com acesso ao sistema de educação formal e que se abastece de informações periodicamente por meio dos jornais/revistas de grande circulação e dos telejornais. Até aí nada demais. 

E onde estaria a tragédia então? A tragédia está no fato de seus articulistas acreditarem apaixonadamente no que escrevem. Os conteúdos expressam aquilo que eles de fato pensam. Pelo menos na maior parte das vezes, não se trata de canalhice, de conspiração golpista, nada disso. Os textos representam a mais completa tradução da visão de mundo de seus autores. Pessoas comuns, "gente como a gente", que buscam um lugar ao sol, um espaço digno em seus campos de atuação profissional, lutam por bons salários, crescimento na carreira, consagração e reconhecimento entre os pares. 

E quanto mais acreditam no que escrevem, mais úteis são para os veículos dos quais fazem parte. Estes sim os grandes beneficiários do sistema que buscam perpetuar. As grandes corporações da mídia são parte da infraestrutura (economia) e da superestrutura (ideologia). Talvez seja o setor em que ambas as características, infraestrutura e superestrutura, estejam mais claramente presentes. Portanto, além de ser um negócio como outro qualquer, que depende de vendas e lucro, é também parte interessada no que publica. Mas possuem o álibi da objetividade e da neutralidade jornalística, o que mascara, como em nenhum outro setor, o fato de serem agentes autorizados para falar dos próprios interesses. Imagine se a indústria do tabaco fosse o agente autorizado para formar opinião sobre os efeitos do vício de fumar? É o que acontece com a grande mídia. E, no fundo, os profissionais da mídia são tão dominados quanto aqueles que pretendem dominar. São soldados obedientes, esforçados, que exercem com bastante competência seus papéis de conservadores dos sistemas de dominação a que pertencem. 

Por outro lado, o campo jornalístico é um campo cada vez mais precário para quem nele atua. Seus porta-vozes também são, numa certa medida, vítimas de seus próprios discursos. São profissionais cada vez mais terceirizados, cada vez mais mal remunerados, cada vez mais explorados e precarizados pelas gigantes do setor de comunicações. Vivem sujeitos a reestruturações, reengenharias e os famosos "passaralhos". É certo que alguns profissionais tornam-se dominantes no campo e se confundem com a própria força econômica do setor. É o caso dos âncoras, dos editores-chefes e de todos os mandachuvas do campo. Mas são minoria. E ainda assim, de tempos em tempos, são trocados, demitidos, substituídos, reciclados e reduzidos a uma quase caricatura do que um dia representaram. No fim, somos todos descartáveis. Essa é a grande tragédia.