segunda-feira, 18 de maio de 2015

Somos todos gestores

"Quando falamos de 'gestão' ou de 'administração', estamos nos referindo ao mesmo assunto ou a questões diferentes?" (Jon Pierre, Administração Pública)

A expressão mais utilizada hoje nos editoriais dos grandes jornais é "gestão". Depois das pérolas em economia, atiradas aos leitores há décadas e da mais nova onda de especialistas em contabilidade e análise de balanço na grande imprensa, o assunto da vez (para usar uma expressão cara aos nossos amigos jornalistas) é a gestão. Ou melhor, má gestão. Em especial gestão pública. Gestão empresarial só é mencionada quando se trata de sociedade de economia mista. Ou empresas públicas

Quando não sabem o que dizer, jornalistas atribuem qualquer coisa à má gestão. Antes, gestão chamava-se administração. Mas o termo gestão é considerado mais preciso, mais eficiente, mais enxuto. Confere um verniz técnico e dá mais autoridade ao jornalista. Fica a impressão de que aquele que escreve domina o assunto. Entende de gestão. Mas a despeito das divergências terminológicas, aqui usaremos como sinônimos. Administração ou gestão, tanto faz.

Mas é bom lembrar aos nossos especialistas da imprensa que a avaliação de qualquer gestão, de acordo com as ciências administrativas, deve levar em conta, entre outras coisas, o horizonte de tempo (curto, médio e longo prazos) e a natureza das variáveis. Há variáveis controláveis, que são aquelas controladas pelos gestores. E há as variáveis não-controláveis, que são decorrentes do ambiente em que a entidade sujeita à avaliação está inserida. As variáveis não-controláveis, como o próprio nome diz, não podem ser controladas pelos gestores. No máximo, podem ser estimadas e levadas em consideração nos processos decisórios com base em probabilidades de ocorrência. São passíveis de serem modeladas e testadas apenas por simulação. Com uso de modelos matemáticos sofisticados. O preço das commodities, por exemplo, é uma variável não-controlável. O preço do barril do petróleo. É possível estimá-lo mas não controlá-lo.

Quando os nossos analistas da mídia falam em má gestão, falam de um modo genérico. Não especificam o horizonte de tempo a que se referem, tampouco esclarecem qual o objeto da má gestão e suas causas prováveis. Cometem aquele que na ciência da administração é considerado um dos erros mais primários: atribuem causalidades a partir de correlações que não explicam o fenômeno analisado. Exemplo. Se um sujeito que sai para comprar pão é atropelado por um carro que avança o sinal vermelho e morre, de acordo com a lógica dos nossos editorialistas especializados em gestão, a causa da morte do sujeito é o pão. Ou melhor, a causa é a má gestão da compra do pão. Morreu atropelado? Bem feito. Quem mandou não saber gerir a compra do pão de maneira eficaz e eficiente! Por falar nisso, daqui a pouco vou sair para comprar pão. Se não voltar, já se sabe a causa.

(Texto em homenagem ao meu filho Leonardo Chen Ferraz, que está cursando Administração na FEA/USP)