quarta-feira, 20 de maio de 2015

A dominação do FMI capturada por uma imagem

Michel Camdessus, diretor-geral do FMI
Os acontecimentos recentes na Grécia fazem parte de um problema maior, cujas raízes datam de décadas atrás, que é a dominação imposta pelos países ricos aos países pobres e aos países em desenvolvimento. Parte da história dessa dominação está muito bem documentada no livro 'Os Malefícios da Globalização', do vencedor do prêmio Nobel de Economia Joseph Stigltz. Aqui reproduzo um trecho bastante eloquente do livro de Stiglitz:

"Ouvir as reflexões dos 'países clientes' sobre assuntos como a estratégia do desenvolvimento ou a austeridade orçamentária não interessa muito ao FMI que, com demasiada frequência, se dirige a eles no tom do senhor colonial.

Uma imagem pode valer mil palavras. E uma foto, tirada de surpresa em 1998 e mostrada no mundo inteiro, ficou gravada no espírito de milhões de pessoas, particularmente daquelas das antigas colônias. O diretor-geral do FMI, Michel Camdessus, um ex-burocrata do Tesouro francês, baixo e bem vestido, que outrora se dizia socialista, está em pé, com olhar severo e braços cruzados, acima do presidente indonésio sentado e humilhado. Este, impotente, se vê obrigado a entregar a soberania econômica de seu país ao FMI em troca da ajuda de que a Indonésia necessita.

No final das contas e paradoxalmente, uma boa parte desse dinheiro não serviu para ajudar a Indonésia, mas para salvar seus credores - que pertenciam ao setor privado das "potências coloniais". (Oficialmente, a "cerimônia" era a assinatura de uma carta de acordo - seus termos são ditados pelo FMI, mas, por artifício, faz-se como se o "protocolo de intenções" venha do governo em questão!) Camdessus afirma que a foto é injusta: não percebera que estava sendo tirada. Mas é justamente essa a questão: trata-se exatamente da atitude que, nos contatos habituais, longe das câmeras e dos jornalistas, adotam os agentes do FMI - do diretor-geral ao burocrata do mais baixo escalão. 

(...) A atitude do FMI, como a de seu chefe, era clara: ele era a fonte viva da sabedoria, o detentor de uma ortodoxia demasiado sutil para ser compreendida no mundo em desenvolvimento - mensagem que ele disparava com muita frequência. Na melhor das hipóteses, haveria ali um membro da elite - um ministro das Finanças, ou o diretor de um banco central. com quem o FMI poderia, eventualmente, ter um diálogo sensato. Fora desse círculo, nem pensar em tentar discutir: não valia a pena". (Joseph E. Stigltz, 2002)

Após mais de uma década do lançamento do livro, sua mensagem é mais atual do que nunca. Para concluir, recorro a conclusão de um recente artigo de Stiglitz, intitulado 'A era da vulnerabilidade': "Independentemente da velocidade de crescimento do PIB, um sistema econômico que não consiga distribuir ganhos à maioria dos seus cidadãos, e no qual uma porção crescente da população enfrenta insegurança crescente, é, fundamentalmente, um sistema econômico falho. E as políticas, como a austeridade, que aumentam a insegurança e levam a rendimentos e padrões de vida mais baixos para grandes proporções da população são, fundamentalmente, políticas defeituosas".