segunda-feira, 18 de maio de 2015

A atualidade de A Queda, de Albert Camus

Albert Camus
Um livro a ser lido: A Queda, de Albert Camus. Como é rápido de se ler, recomendo a leitura do livro inteiro uma vez por semana, durante pelo menos um mês. O ideal é manter o procedimento até que a hipocrisia compulsiva, a indignação egocentrada e o falso moralismo sejam expulsos das entranhas. Sempre haverá um resíduo de tudo isso em nós, mas uma vez concluído o procedimento, respira-se melhor. O ódio à vida vai se dissipando. Ao menos parte dele. Segue uma pequena amostra do texto: 

"Devo reconhecer humildemente, meu caro compatriota, que fui sempre um poço de vaidade. Eu, eu, eu, eis o refrão de minha preciosa vida, e que se ouvia em tudo quanto eu dizia. Só conseguia falar vangloriando-me, sobretudo quando o fazia com esta ruidosa discrição, cujo segredo eu possuía. É bem verdade que eu sempre vivi livre e poderoso. Simplesmente, sentia-me liberado em relação a todos pela excelente razão de que me considerava sem igual. Sempre me achei mais inteligente do que todo mundo, como já lhe disse, mas também mais sensível e mais hábil, atirador de elite, incomparável ao volante e ótimo amante. Mesmo nos setores em que era fácil verificar minha inferioridade, como o tênis, por exemplo, em que eu era apenas um parceiro razoável, era-me difícil não acreditar que, se tivesse tempo para treinar, superaria os melhores. Só reconhecia em mim superioridades, o que explicava minha benevolência e minha serenidade. Quando me ocupava dos outros, era por pura condescendência, em plena liberdade, e todo o mérito revertia em meu favor: eu subia um degrau no amor que dedicava a mim mesmo. (...) Vivia, pois, sem outra continuidade no dia a dia que não fosse a do eu-eu-eu. No dia a dia, as mulheres; no dia a dia, a virtude ou o vício; no dia a dia, como os cães, mas todos os dias, eu próprio, firme em meu posto. Avançava, assim, na superfície da vida, de certo modo por palavras, nunca na realidade. Todos esses livros mal lidos, esses amigos mal-amados, essas cidades mal visitadas, essas mulheres mal possuídas! Eu fazia gestos por tédio ou por distração. Os seres vinham logo atrás, queriam agarrar-se, mas não havia nada, e era a infelicidade. Para eles. Porque, quanto a mim, eu esquecia. Nunca me lembrei senão de mim mesmo." (Albert Camus)