quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Desigualdade: a nossa particularidade mais perversa

Montagem da peça Ham-let
Teatro Oficina - 1993
"Nas correntes corruptas deste mundo
As mãos douradas do delito podem afastar a justiça –
Como tanto se vê – o próprio lucro do malfeito
Comprando a lei."
(William Shakespeare, em Hamlet, peça escrita entre 1599-1602)


Corrupção se combate com auditoria, controle interno, sistemas de informação, investigação, ação policial e judicial coordenadas. Mas é preciso desfazer alguns mitos: corrupção não é um fenômeno exclusivamente do setor público. Dele participam atores os mais variados. Empresas privadas, empresas públicas, sociedades de economia mista, autarquias, templos religiosos, governos federal, estaduais e municipais e os poderes legislativo, executivo e judiciário. Há sempre um corrupto e um corruptor. Corrupção também, que fique claro, não é uma prática que se limita a partidos específicos. Transcende, portanto, partidos políticos. Tampouco trata-se de fenômeno novo, específico das sociedades capitalistas modernas, ainda que em economias de mercado, dada a multiplicidade de transações, a escala da corrupção seja muito maior. Historicamente, a corrupção vem acompanhando a humanidade desde o instante em que relações de poder se estabeleceram. Desde Homero, Platão, Aristóteles, O Antigo Testamento, Padre Antônio Vieira, Maquiavel, Shakespeare, Machado de Assis até os seriados da Netflix, todos testemunharam em suas obras relatos de corrupção. E o mais importante, a corrupção não é um fenômeno típico da sociedade brasileira. Nem na sua origem, nem agora. Os maiores casos de corrupção corporativa, com ou sem participação estatal, são originários dos países do Hemisfério Norte, o chamado primeiro mundo, tão idealizado por nossos intelectuais, moralistas, jornalistas, economistas, endinheirados, cosmopolitas e letrados em geral. Basta pesquisar os maiores casos de corrupção mundial no mercado financeiro ou no setor do petróleo (somente para ficar em dois segmentos) e verificar os resultados. A documentação é farta. Não somos, afinal, o país do jeitinho, do patrimonialismo, do personalismo, do nepotismo, da mutreta ou seja lá o que for. E se o somos em algum grau, somos tanto quanto qualquer país desenvolvido ou em desenvolvimento, ou seja, o somos não enquanto povo ou nação, mas somente naquela parcela da população que detém os meios materiais e sociais para sê-lo. A corrupção, portanto, não é causa da miséria humana, nem no Brasil, nem alhures, apenas um dos muitos efeitos das relações iníquas de poder. De resto, somos um país extremamente desigual, com uma concentração de renda e riqueza brutal. Isto sim, embora não seja uma exclusividade de nosso país, é uma particularidade perversa.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O que é choque de capitalismo?

Uma grande parte da "inteligência" brasileira adora falar que o Brasil precisa de um choque de capitalismo. De Fabio Giambiagi a Marcelo Madureira, passando por Arnaldo Jabor, Míriam Leitão, Gustavo Franco, Denis Rosenfield, Bolívar Lamounier, Nelson Motta, Roberto DaMatta e tantos outros que inundam as páginas da mídia corporativa com textos supostamente liberais. E o que entendem por choque de capitalismo? O de sempre: redução de gastos públicos nas áreas sociais, corte de impostos, Banco Central independente, fim do BNDES, privatizações, terceirizações etc. Mas esse tipo de choque nada tem de capitalista, em sentido clássico. Apenas reforça os privilégios de quem já é privilegiado. Retira recursos de quem menos tem e os transfere para quem muito já tem. É um choque de desigualdade. Se quisermos realmente falar em choque de capitalismo, teríamos que começar pelo corte abrupto das taxas de juros. Eliminar os subsídios aos bancos e rentistas, que hoje se beneficiam da maior taxa de juros reais do planeta. Bancos teriam que competir entre si oferecendo as melhores taxas e os melhores serviços. E rentistas teriam que colocar seus recursos no setor produtivo para obter ganhos reais. O custo do capital ficaria mais barato, portanto as taxas de retorno não necessitariam ser tão elevadas, com impactos positivos na formação de preços de produtos e serviços, oferecendo negócios mais atraentes aos consumidores. Os especuladores financeiros externos, que aplicam seus recursos no Brasil em razão das taxas de juros elevadas, migrariam para outras bandas. O câmbio, em um primeiro momento, seria mais pressionado, os produtos importados ficariam ainda mais caros, o que estimularia a indústria nacional a fornecer produtos competitivos no mercado interno. As exportações aumentariam, diminuindo a necessidade de capital estrangeiro para compor as reservas em dólar. Depois de alguma turbulência, os preços se estabilizariam e estaríamos livres da maldição do juros estratosféricos e do câmbio eternamente sobrevalorizado. Os gastos com a dívida pública se reduziriam e recursos ficariam livres para investimentos em infraestrutura. As famílias, que hoje gastam cerca de 45% de suas rendas em juros, teriam seu poder aquisitivo aumentado, com impactos positivos no setor produtivo. O emprego e a renda seriam beneficiados. Outro choque necessário seria o fim dos monopólios e oligopólios artificiais, como rezam os manuais ortodoxos de economia, sobretudo nas áreas de telecomunicações. Os serviços de telefonia seriam forçados a oferecer mais por menos, como no resto do mundo, em que o setor é altamente competitivo. O mesmo vale para o setor da mídia, que é controlado por algumas poucas famílias que detêm um poder praticamente ilimitado. Controla conteúdos, manipula preços, fabrica consensos, deseduca as massas, homogeneíza a cultura, nivela a arte e determina o pensamento de grande parte da população, sempre de acordo com seus interesses de ocasião. Tudo isso sem nenhuma regulamentação. Esse tipo de choque capitalista nossos formadores de opinião, verdadeira tropa de choque das elites, representantes da mídia corporativa e do capital financeiro, não ousam reivindicar. É muito chocante para quem não quer correr riscos de perder suas confortáveis posições no pior dos capitalismos. O capitalismo mais selvagem. Na sua versão mais perversa. Neoliberal. Excludente, concentrador de riqueza e voltado exclusivamente para os interesses de uma classe dominante, que domina o país por inércia.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O que vem das entranhas não se fabrica

Manifestações em Copacabana
Rio de Janeiro, 13 de dezembro de 2015
A Veja bem que tentou. Logo de manhã, em seu portal, estava convocando "as vozes roucas das ruas", na expressão de seu articulista especializado em clichês, a comparecerem nas manifestações em favor do impeachment. No final da tarde, ao verificar o fracasso retumbante do chamado às ruas, alegou falta de tempo para a organização do movimento e mudou a manchete: "Em 'esquenta', manifestantes já marcam data de novo grande protesto". Patético. O que houve foi mais um "esfria". E a marcação da nova data é uma tentativa para requentar um movimento que já soa velho, decadente, e encolhe a olhos vistos. A lição que fica: a mídia corporativa pode manipular quase tudo, mas jamais conseguirá manipular um clamor verdadeiramente popular. O que vem das entranhas não se fabrica. É, ou não é.

Crises econômicas não justificam processos de impeachment

Leilão judicial de casa na Califórnia
Foto: Ariel Zambelich/AP
Quando Dilma Rousseff se reelegeu em 2014, a oposição, auxiliada pela narrativa catastrofista da grande imprensa, imediatamente decretou o discurso da crise. Discursos abalam a confiança. E no capitalismo avançado, crises de confiança causam crises econômicas. Há um efeito performativo na narrativa da crise. Ao narrá-la, a despeito das realidades factuais, um clima adverso se instaura. Os resultados são impactados pelas expectativas, que se confirmam em razão das ações provocadas por elas mesmas, as expectativas. Um efeito de retroalimentação é disparado. Acrescente a instabilidade política fabricada pelos narradores do discurso da crise e seus propagadores midiáticos, e pronto: fez-se a crise. Mas se crise econômica fosse motivo para impeachment, todos os presidentes dos países democráticos mundo afora teriam sido depostos em algum momento da história. A democracia simplesmente não se sustentaria no sistema capitalista avançado, permeado por instabilidades crônicas, por crises sistêmicas, cíclicas e periódicas. O exemplo dos EUA, em 2007/2008, seria o mais emblemático: depressão econômica, corrupção generalizada no sistema financeiro, fraude à economia popular, manipulação de balanços e resultados por parte de grandes corporações sob conivência das auditorias públicas, ajuda a bancos com dinheiro do contribuinte, contaminação dos mercados globais por falta de regulamentação adequada e queda abrupta nos índices de popularidade do presidente. Em 2009, o desemprego nos EUA havia atingido 10,2%. Neste período, em razão da crise mundial, cujos efeitos ainda persistem, alguns países tiveram quedas no PIB superiores a 30% e taxas de desemprego que ultrapassaram 25%, chegando a mais de 50% entre jovens de 18 a 30 anos. Em resumo, se coubesse impeachment a cada crise do capital, acompanhada de ambiente institucional corrupto e/ou queda de popularidade do presidente eleito, seria a morte de todas as democracias modernas. O impeachment seria a regra e não uma exceção.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Quando a sede de poder esvazia o discurso

“Diríamos que o Direito é como o rei Midas. Se na lenda grega esse monarca convertia em ouro tudo aquilo que tocava, aniquilando-se na sua própria riqueza, o Direito, não por castigo, mas por destinação ética, converte em jurídico tudo aquilo em que toca, para dar-lhe condições de realizabilidade garantida, em harmonia com os demais valores sociais.” (Miguel Reale, Lições preliminares de Direito)

“Democracia é um conceito político, não é jurídico”, afirmou recentemente Michel Temer. Trata-se, mais um vez, de declaração sofística, sem nenhum efeito prático, a não ser o de obscurecer o debate público. Democracia é um conceito político. Fato. Mas afirmar que não se trata de conceito jurídico é algo irrelevante, totalmente inócuo, pois ainda que a democracia não seja um conceito jurídico em sua origem, ao se concretizar sob a forma de um Estado democrático de direito, passa a integrar o mundo jurídico. A partir do instante em que uma categoria política é recepcionada pelo direito vigente, ela torna-se parte integrante do ordenamento jurídico. Logo, se a democracia, em abstrato, é um conceito político, em sua concretude não escapa de ser também jurídico. Como a afirmação se refere a uma democracia existente, qual seja a brasileira, o vice-presidente usa palavras como balas de festim. Somente para fazer algum barulho. Por nada. Exceto por exibicionismo e vaidade. E sede de poder. Mas nesse caso o tiro saiu pela culatra. Se pretendeu ser erudito, vendeu-se por inarticulado. Será que o ilustre professor de Direito Constitucional faltou às aulas de lógica jurídica e lógica formal nos tempos de estudante? Ou usa propositadamente argumentos falaciosos apenas para confundir seus interlocutores? 

sábado, 12 de dezembro de 2015

A imoralidade distributiva

"O que está em jogo não é a melhoria do combate à corrupção por meio do melhor aparelhamento dos órgãos de controle. O que existe é uma dramatização da oposição mercado (virtuoso) e Estado (corrupto) construída como uma suposta evidência da singularidade histórica e cultural brasileira." (Jessé Souza)

Enquanto os setores médios da população, as elites e a mídia corporativa discutem obsessivamente a corrupção, como se não fossem, em certa medida, eles próprios parte dela, os problemas mais centrais, que realmente importam ao país, são esquecidos ou relegados a um segundo plano. Enquanto se discute a moralidade administrativa como se fosse esta a origem de todos os nossos males, a imoralidade distributiva, traduzida na trágica concentração de renda social nas mãos de um reduzido grupo de privilegiados, permanece intocada. Convertem a exceção em regra. Tomam a parte pelo todo. E tratam da corrupção como se fosse uma particularidade da sociedade brasileira e não um fenômeno endêmico do capitalismo mundial, a ser combatido em escala global mediante o aprimoramento contínuo dos mecanismos de auditoria e controle. Demonizam o Estado, como se o mercado fosse o templo da virtude. 

Além de cometer todo o tipo de irregularidade (sonegação fiscal, ilegalidades trabalhistas e previdenciárias, formação de cartéis, monopólios ilegais, superfaturamentos, preços abusivos, vendas casadas, entrega de produtos com atraso, serviços de péssima qualidade, atendimento precário ao consumidor, salários depreciados, uso de mão de obra análoga a escravo, agressão ao meio ambiente etc.), as grandes corporações possuem estruturas ineficientes, inchadas e supérfluas, em seus níveis gerenciais, e estruturas precárias e sobrecarregadas nos níveis operacionais, de modo a garantir a seus diretores uma estrutura que permita perpetuá-los no poder, com elevadas compensações financeiras. 

Uma lógica que aprofunda as desigualdades de renda e riqueza no país. Sem mencionar outra questão igualmente profunda, também encoberta pelos meios de comunicação, que é o fato de o país praticar a maior taxa de juros reais do planeta. Demonizam a política fiscal, exigem corte de gastos sociais e redução de impostos, enquanto a política monetária corre frouxa, agravando o déficit público e retroalimentando a concentração de renda e riqueza. Fato que retira recursos já escassos da sociedade brasileira, e os transfere para rentistas sob a forma de confortáveis ganhos em renda fixa e produtos financeiros. 

Em outras palavras, enquanto articulistas, cientistas sociais, intelectuais genéricos, economistas, jornalistas e políticos conservadores desviam nossa atenção e nos entorpecem com problemas acessórios, mediante domínio real e simbólico das instituições, as questões realmente relevantes são varridas para debaixo do tapete. E a injustiça institucionalizada é justificada "cientificamente" e "naturalizada". Um ideário que reverbera por toda a sociedade, atingindo os corações e mentes até daqueles que em nada se beneficiam com essa visão de mundo. Fabrica-se, assim, um consenso, em que dominantes e dominados partilham a mesma visão de mundo. Eis a grande violência simbólica de nosso tempo. Tudo em nome do retorno do capital, quase sempre improdutivo. E socialmente ineficaz. Seja sob a forma de bônus, juros, lucros, aluguéis, exploração da terra ou especulação mobiliária e imobiliária. Retornos, diga-se de passagem, não excludentes entre si. Em geral, cumulativos. E, em si, excludentes.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O crime desorganizado nos tempos de FHC

"Se houve, não foi organizada como agora", declarou recentemente Fernando Henrique Cardoso sobre a corrupção em seu governo. Conclusão: crimes desorganizados não merecem punição. Só os organizados. Quem se importa com a corrupção desorganizada dos tempos de FHC? A bagunça da compra de votos para reeleição, o caos das propinas nas privatizações, o escândalo estapafúrdio do Sivam, a confusão do Proer, o caixa dois de campanha gerido pelo desordenado Sérgio Motta, a obscuridade do grampo no BNDES, a desordem na construção do TRT paulista, o labiríntico caso Marka/FonteCindam, a promiscuidade do caso da Base de Alcântara, as negociatas nas compras de computadores com os recursos do Fust, as travessuras de Eduardo Jorge, as peripécias do engavetador Geraldo Brindeiro, os rombos e desvios assimétricos na Sudam/Sudene, o quebra-cabeça do Fundef, o desmatamento descontrolado na Amazônia, os desvios mirabolantes do esquema no FAT, os acidentes desestruturados na Petrobras, intervenção improvisada na Previ, a surpresa do racionamento de energia... E tantas outras desorganizações que rapidamente caíram no esquecimento. Tudo sem nenhum planejamento. Nenhuma organização. Crimes desorganizados. Organizadamente blindados pelas instituições, públicas e privadas. Logo impunes. Portanto, inexistentes juridicamente. O príncipe dos sociólogos, tão erudito, deveria recapitular as lições de Platão, em Górgias: "O culpado e o injusto serão sempre infelizes, e mais infelizes serão se não prestarem contas à justiça". Mas a lógica e a ética de FHC parecem obedecer a critérios mais práticos e menos filosóficos.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Brasil: a construção sempre interrompida

"O ponto de partida de qualquer novo projeto alternativo de nação terá que ser, inevitavelmente, o aumento da participação e do poder do povo nos centros de decisão do país." (Celso Furtado)

O Brasil ainda é um país escandalosamente desigual. Nessas condições, um governo só é legítimo quando suas políticas públicas são voltadas para redistribuição da renda e da riqueza. Embora sejamos um país de renda média, nosso PIB per capita é distorcido em razão da renda concentrada. Ainda não somos exatamente um país de classe média. Posto que tenha potencial de riqueza, o Brasil não é, como muitos afirmam, um país rico. A despeito dos notáveis avanços econômicos e sociais da última década, a maioria da população ainda vive em relativa pobreza. Portanto, a construção de uma sociedade mais justa e igualitária não pode ser interrompida. O Brasil já foi por demais interrompido ao longo de sua história. O golpe de Estado ora em curso, capitaneado pelas elites econômicas e financeiras do país, é um golpe pela interrupção do Brasil. Um golpe pela repetição da interrupção do processo democrático. Interrupção arquitetada para desmontar as políticas de redistribuição de renda e riqueza; eliminar gradativamente as redes de proteção social; transferir mais renda e riqueza para setores já privilegiados; terceirizar atividade-fim e precarizar ainda mais as classes trabalhadoras; abrir mercados estratégicos para capitais estrangeiros; reduzir impostos para aqueles cuja carga tributária já é proporcionalmente menor; privilegiar mercados financeiros em detrimento dos setores produtivos; privatizar progressivamente as áreas de saúde e educação; reestruturar instituições públicas de modo a esvaziá-las; favorecer a especulação imobiliária; proteger o latifúndio improdutivo; dificultar o enquadramento de trabalho análogo a escravo; endurecer as políticas de segurança pública; robustecer o rentismo mediante juros cada vez mais elevados; blindar as irregularidades públicas e privadas via Poder Judiciário, Procuradoria Geral da República, Tribunal de Contas, Ministério Público, Polícia Federal, Receita Federal e imprensa corporativa; e, sobretudo, desmoralizar e aniquilar, uma vez mais, os objetos mais emblemáticos do eterno ódio da elite nacional: a democracia e o povo brasileiro.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Quando a luta de classes se converte em golpe de Estado

Imagem: Jean Baptiste Debret
Em 2014, pelo quarto pleito consecutivo, o PSDB perdeu as eleições presidenciais. Resultado que reflete não o voto das esquerdas, cuja massa eleitoral é pouco representativa em termos quantitativos, e sim da parcela do eleitorado que definitivamente não vota por questões ideológicas mas por razões pragmáticas, fundamentadas na inteligência prática. Pessoas que simplesmente verificaram a melhoria de suas condições de vida e levaram este fato em consideração na hora de votar. Em regiões do país que transcendem os grandes centros urbanos da área geoeconômica denominada Centro-Sul. Mas para os derrotados, quatro mandatos seguidos é tempo demais para deixar o processo democrático seguir o seu curso natural. Assim, diante dos reveses sucessivos, a oposição, amparada pelos meios de comunicação de massa e por instituições acadêmicas, cujos interesses econômicos e políticos com ela se coadunam, logrou cooptar as camadas médias da população, facilmente manipuláveis pelo discurso da moralidade administrativa, com o intuito de aplicar um ardiloso golpe de Estado. Golpe sem quartelada, arquitetado por comerciantes de pareceres jurídicos, sofisticados sofistas, pomposamente chamados de juristas. Golpe com marmelada, que anula os votos vencedores de uma camada da população que historicamente sempre foi alijada dos processos decisórios do país. O que está na raiz do processo de impeachment não são pedaladas fiscais ou irregularidades no âmbito do TSE, mas a ascensão social de uma classe que sempre foi alvo da mais profunda indiferença por parte de nossos dirigentes políticos. Algo que para as elites é inadmissível. Diante de tanto inconformismo, vale tudo para interromper esse curso indesejado. Até paralisar o país. Desde que tudo mude, e volte a ser como sempre foi.

As lições nada lúdicas da Primavera Paulista

Estudiantes - Eneko
Quando um representante da grande mídia corporativa afirma que os estudantes de São Paulo estavam brincando de Primavera Árabe, fica clara a prepotência e a arrogância de uma classe que, do alto de suas salas refrigeradas e assépticas, só trabalha em prol de seus interesses políticos e econômicos, e ainda se julga no poder de sentenciar o que seria um movimento popular relevante, sem jamais haver tido contato com os problemas reais de uma imensa parcela da população, jogada na mais absoluta indiferença, por ser considerada irrelevante por seus controladores, por seu público-alvo consumidor, seus patrocinadores e anunciantes.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Unidade de impressão e uniformidade de expressão

Diante de um governo popular, a grande mídia é oposicionista. Golpista. Face a um governo elitista, a grande mídia é governista. Legalista. Em ambos os casos, a grande mídia serve às grandes corporações, setor do qual é parte integrante. E se utiliza das classes médias como insumo para seus lucros. Seja como público consumidor de seus produtos, seja como público consumidor dos produtos de seus anunciantes, as classes médias garantem altos retornos para as grandes corporações midiáticas. E ainda reproduzem obedientemente suas ideologias, crenças e valores: diversidade de consenso, pluralidade hegemônica, liberdade de padronização, unidade de impressão, uniformidade de expressão, Estado mínimo, segurança máxima, fundamentalismo de mercado, privatizações, criminalização das minorias, condominização das cidades, segregação social, racismo velado, dominação meritocrática, manutenção de privilégios, urbanização especulativa, liberalização dos mercados financeiros, agências de risco, isenção para grandes fortunas, redução de impostos, aumento de juros, rentismo, moralidade administrativa partidária, imoralidade corporativa, estética conservadora, apoio à CBF, repúdio à CPMF, voto censitário, deslegitimação da cota para universitário, democracia plutocrática, ética seletiva, SUVs, concentração de renda, indignação por segmentação, blindagem para políticos aliados, carceragem para os inimigos, cirurgia plástica no nariz, entretenimento ligeiro, culpabilização das classes trabalhadoras, amores líquidos, solidões sólidas, culto ao individualismo, turismo predatório, demonização de sindicatos, celebridade da vez, premiações circulares, descobertas científicas inócuas, despolitização da política, cientificismo econômico, neoliberalismo para os pobres, protecionismo para os ricos, eficiência destruidora, guerras "justas", lucros injustos, eficácia desumanizadora, pensamento único, coro de articulistas, intelectuais empresários, celebração do supérfluo, egocentrismo, vaidade, obituário, arquitetura sectária, cubículo de empregada, engenharia rodoviária, viadutos, economistas banqueiros, doméstica sem FGTS, aposentado sem INSS, empresário sem ICMS, redução da maioridade penal, arte submissa, universidade omissa, sustentabilidade insustentável, tolerância à sonegação, maniqueísmos esquemáticos, marketing, merchandising, monetarismo, loft em New York, futebol de resultado, desmoralização de movimentos populares, desapropriações na forma da lei, desocupação com a força das armas, milionários inúteis, bom gosto, Botox, detox, carreirismo, manifestações ordeiras pela volta do regime militar, repressão violenta a baderneiros que lutam pelo direito de estudar, flexibilização do trabalho análogo ao escravo, terceirização de atividade-fim, fim do regime de partilha no pré-sal, ajuste fiscal, austeridade, dieta da moda, cosmopolitismo provinciano, civilização contra barbárie, nós contra eles, o inferno é o outro. Destruição de partidos políticos contrários aos seus interesses e canonização de partidos políticos que representam seus interesses. Basta ler os editoriais dos grandes jornais, ouvir os comentaristas das rádios e assistir as pautas dos telejornais dos grandes grupos de comunicação. Está tudo lá. Todos os valores internalizados. Naturalizados. Tudo levado muito a sério. Repleto de sinceridade. Embrulhado e empacotado. Envolto em ceticismo cínico. Atrativamente didático. Inteligentemente envernizado. Facilitado. Estruturado. Quase intuitivo. Leve e palatável. Disponível para consumo imediato e propagação automática.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A paz é mau negócio

Foto Isabela Kassow
Por que tanta violência no mundo de hoje? Uma das respostas possíveis é econômica. A indústria bélica não pode parar. E o artefato cria o fato. Que conduz ao ato. A lógica capitalista é crescer ou morrer. A pequena padaria da esquina que não se transformou em uma rede de fast food é a exceção que confirma a regra. Logo, para quem produz armas, a paz é um mau negócio. Interrompe o crescimento. Dá prejuízo. E as metas comerciais devem ser batidas. O show não pode parar. Seja guerra, guerrilha, terrorismo, tráfico ou violência urbana, tudo isso é muito lucrativo. E deve ter fluxo positivo para garantir a expansão dos negócios. Lucro direto para os fabricantes de armamentos. Indireto para toda a cadeia de valor: desde os bancos e acionistas que financiam os projetos de novas tecnologias bélicas (que lucram muito ao fazê-lo), até a rede de suprimentos que abastece o setor. Transporte, matérias-primas, vestuário, alimentação, energia, engenharia de sistemas, gestão de projetos e, em última instância, a industria da reconstrução. A destruição também é um excelente negócio. Um mundo de oportunidades para empresas de infraestrutura, construção civil e grandes empreiteiras. Sem mencionar os setores correlatos de segurança privada, exércitos particulares, mercenários legalizados, blindagem, alarmes, monitoramentos, drones. O marketing é feito subliminarmente pela mídia, por políticos, pelos "cidadãos de bem", pela indústria do entretenimento e pela lógica do encarceramento. A legitimidade moral, incrustada nas universidades. A representatividade política, infiltrada nos parlamentos. Não é a toa que grande parte dos recursos provém de impostos. E como não existe almoço grátis, os recursos que poderiam ir para educação, saúde, redistribuição de renda, urbanização de áreas carentes, pesquisas ambientais, ajuda humanitária etc. são drenados pela indústria bélica. Assim como cérebros que poderiam estar contribuindo para um mundo mais pacífico e justo, são atraídos por esta mesma indústria. Engenheiros, cientistas, administradores, economistas. As melhores cabeças, quando não são cooptadas pelo mercado financeiro, muitas vezes são arrastadas pela indústria da violência. Paga-se muito bem. Definitivamente, a paz interessa a poucos. Num mundo hobbesiano, quem vai dar o primeiro passo e se desarmar? Aparentemente ninguém. E a indústria bélica é irresistível. A cada nova onda de violência, um próspero ciclo de negócios é ativado. Uma bomba ou uma bala só são utilizadas uma única vez. Munições não são recicláveis. Exigem reposição imediata. Mas as vidas perdidas nunca mais serão repostas. Resultado? Indiferença. Banalização. Medo. Um preço que muitos parecem estar dispostos a pagar. Desde que os lucros continuem. E os suspeitos de sempre sejam punidos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Por que não?

Captura de Jerusalém, durante a primeira Cruzada.
Ano de 1099. Pintor desconhecido
Se Lula, por que não FHC? Se Dirceu, por que não Cunha? Se Noriega, por que não Reagan? Se Saddam, por que não Bush? Se contrabandista de ouro, por que não traficante de escravos? Se PT, por que não PSDB? Se financiamento de campanha, por que não compra de reeleição? Se batedor de carteira, por que não latifundiário? Se Paris, por que não Galadima? Se jogo clandestino, por que não o carnê do baú? Se Legislativo, por que não Judiciário? Se Executivo, por que não Forças Armadas? Se guerrilheiro, por que não torturador? Se cambista, por que não acionista? Se usurário, por que não banqueiro? Se índio, por que não bandeirante? Se camelô, por que não oligopólio? Se ativista, por que não poluidor? Se MST, por que não TFP? Se jihadista, por que não cruzado? Se favela, por que não condomínio? Se analfabeto, por que não doutor? Se corrupção, por que não sonegação? Se público, por que não privado? Se Estado, por que não mercado? Se barbárie, por que não civilização?

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A insustentável aspereza do mundo

Crédito da imagem: NASA
Esta tristeza é minha? Ou é a tristeza do mundo?
Sou eu que ando a me desfazer pelo mundo? 
Ou o mundo é que se desfaz enquanto me desfaço?
A irrelevância diante do mundo é só minha? 
Ou o mundo que é irrelevante, tão só em tantos mundos?
É o mundo assim árido, ou sou eu que deserto?
Sou eu que vagabundo? Ou o mundo que vaga mudo?
A brutalidade é minha, ou é a aspereza do mundo?
Será minha dor assim grande? Ou o mundo que é imenso?
Sustentarei ainda o meu ser nesse mundo insustentável?
Ou somos todos um mundo, que já não suporta mais ser?

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Narciso acha feio o que não é espelho

Carlos Alberto Torre erguendo a taça Jules Rimet em 1970
Por que falamos tão mal da Argentina e nos consideramos tão superiores? Até usamos o termo "argentinização" como algo pejorativo, uma condição negativa a ser evitada. No entanto, os gastos dos argentinos com educação, em relação ao PIB, são mais elevados que os nossos. O número de médicos por habitante é mais alto. O PIB per capta é maior. A expectativa de vida é mais longa. A desigualdade de gênero é inferior. O índice Gini, que mede a concentração de renda, é melhor na Argentina que no Brasil. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) deles ocupa um lugar muito mais bem posicionado no ranking mundial em relação ao nosso. O cinema argentino produz uma quantidade filmes bem maior que o cinema brasileiro. E quase todos de ótima qualidade. Eles têm até um papa progressista! Então por que tanto complexo de superioridade de nossa parte? Será que é porque a frota de veículos de lá é mais velha? Ou porque vencemos mais Copas do mundo de futebol? Por que somos tão narcistas ao nos compararmos com nosso irmão do Sul, apesar de tanto "complexo de vira-lata" em relação ao outro irmão do Norte? Mistério. Essa temática valeria um estudo antropológico aprofundado. Talvez agora com esse novo presidente eleito - neoliberal, austero, empreendedor, elegante, eficiente, cosmopolita, modernizador e preparadíssimo - tenhamos alguma chance de superá-los. Provavelmente mediante um nivelamento por baixo. Infelizmente. É fato que na última década nossos indicadores melhoraram.Mas se copiarmos a onda neoliberal de nossos queridos vizinhos, certamente navegaremos no mesmo barco. E afundaremos juntos. Num melancólico abraço de afogados. 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Uma certa ignorância

El Tres de Mayo, de Francisco de Goya
A pior ignorância é a certeza tecnicista. 
Tecnocrática, autoritária, fascista.
Acompanhada de números,
pode matar mais que mil bombas. 
Atômicas. 
Acompanhada de letras,
pode matar mais que mil epidemias.
Agônicas.
Acompanhada de ciência, virulência.
Técnica e limpeza étnica.
Neutralidade ética.
Naturalidade bélica.
Ciência com impaciência.
Eficácia, falácia.
Eficiência, violência.
Erudição, dominação.
Nem ignorância da certeza,
ou certeza da ignorância.
Tecnocrática, autoritária, fascista.
A pior ignorância é a certeza tecnicista.

Neoliberalismo: a pior versão do capitalismo

É impossível não concordar com a frase célebre de Milton Friedman, o sempre citado (nem sempre lido) guru neoliberal: "não existe almoço grátis". De fato, não existe almoço grátis. Nem jantar. Nem Veuve Clicquot. Para que sejam mantidos os intocáveis privilégios das elites financeiras, só mesmo cortando gastos sociais, isentando a distribuição de lucros, deixando de tributar as grandes fortunas e, consequentemente, estimulando a concentração de renda. O economista Joseph E. Stiglitz, vencedor do prêmio Nobel de Economia em 2001, e muitos outros teóricos importantes, como Paul Krugman (também vencedor do Nobel) e Ha-Joon Chang, demostraram, em farta literatura acadêmica, que mercados desregulamentados frequentemente não só conduzem à injustiça social, mas sequer produzem resultados eficientes. Até publicações conservadoras, como o periódico The Wall Street Journal e a revista The Economist, além de instituições nada revolucionárias como o Banco Mundial e o FMI, admitem publicamente que as soluções neoliberais não entregaram o prometido. Ao contrário, reduziram o crescimento mundial e aumentaram a concentração da renda e da riqueza. No Brasil, o ideário só se mantém hegemônico na imprensa e na academia por um simples motivo: seus resultados beneficiam as elites financeiras, que encomendam produções científicas para justificar, à luz de uma suposta ciência econômica, seus privilégios de classe. Neoliberalismo não é sinônimo de economia de mercado. É apenas a sua distorção mais perversa.

domingo, 22 de novembro de 2015

Não existe pecado ao Sul do Equador

FHC, Ruth Cardoso, Marco Maciel e Carlos Menem - Foto Arquivo AE
“Aqueles entre nós que viveram os anos da Grande Depressão ainda acham impossível compreender como as ortodoxias do puro mercado livre, na época tão completamente desacreditadas, mais uma vez vieram a presidir um período global de depressão em anos recentes." (Eric Hobsbawn)

Um fantasma ronda a América Latina: o fantasma do neoliberalismo. Munido de uma agenda que lembra bastante a cartilha do Consenso de Washington, celebrada e implantada fielmente na região do Mercosul, durante a década de 1990, nos tempos de Menem, FHC & Cia, o candidato da coalizão "Cambiemos", Maurício Macri, foi eleito o novo presidente da República na Argentina.

A julgar pelo recente documento elaborado pelo PMDB, "Uma ponte para o futuro" (que poderia ter sido produzido por praticamente qualquer partido de oposição), expressão programática aglutinadora da onda liberal conservadora instalada por aqui nos últimos tempos, o quase quadragenário neoliberalismo, mais uma vez repaginado, a despeito de todos os seus fracassos mundo afora, também está bem vivo no Brasil. Não só na academia e na imprensa, onde sempre foi hegemônico, mas como projeto político explícito. E agora com um novo aliado no âmbito do Mercosul, recém eleito nas urnas argentinas.

Aqui do lado de baixo do Equador, a direita voltou para ficar. Com a adesão incondicional dos setores médios da sociedade, manipulados pela eterna elite rentista, cuja maior habilidade tem sido vestir ideologias concentradoras de renda e riqueza com o manto sagrado da "eficiência modernizadora", os efeitos dessa nova onda neoliberal deverão ser duradouros. E como de costume, devastadores. Sobretudo para as camadas menos favorecidas da população. 

Camadas desfavorecidas, eternamente esquecidas pelos poderosos representantes do mercado financeiro, travestidos de políticos, amparados ideologicamente pelas imensas côrtes de economistas, intelectuais e jornalistas. Todos sempre encantados com suas próprias ideias. Sempre muito bem remunerados. Sempre muito bem favorecidos. Todos sempre muito sorridentes.

domingo, 15 de novembro de 2015

Somos todos bárbaros

Ataque terrorista em Beirute, no Líbano (Reuters, 2015)
Lutos, pesares, lamentos. O mundo vive em estado de tragédia permanente. Hoje e sempre. Cotidiano intranquilo. Guerras, devastações, ganância, intolerância, brutalidade, terror. Sejamos solidários com as vítimas dos atentados na França. Mas sejamos também solidários com os libaneses, nigerianos, quenianos e tantas outras populações que têm sofrido ataques terroristas, sistematicamente, sob o silêncio quase absoluto do mundo "civilizado". A solidariedade e a empatia são sentimentos universais. No coração humano não existem fronteiras. Em tempos de individualismo extremo, nenhum sentimento de solidariedade precisa ser excludente. A hora não é de patrulhamento das comoções, próprias ou alheias. É natural nos comovermos com situações em que nos identificamos mais, em detrimento de outras que percebemos como mais distantes de nossas realidades. Ao fim e ao cabo, quase tudo acaba em esquecimento. Vivamos, portanto, cada um ao seu modo. Com suas dores. Seus prazeres. Seus amores. Interesses. Próximos ou distantes, sejamos o que somos: humanos, demasiadamente humanos. Seres imperfeitos, que no mais das vezes, em tempos de comunicação de massas, nos deixamos guiar pelas diretrizes de uma mídia hipócrita e cínica, que nos quer fazer crer existir uma luta entre civilização e barbárie, sendo ela mesma uma das mais bárbaras expressões do mundo atual. Enquanto isso, em terras brasileiras, nossas periferias explodem silenciosamente. Nossos doces rios morrem e levam consigo longínquas vidas humanas, de um mundo cada vez mais remoto e distante, enterrando sem nenhum funeral, toda a fauna e toda a flora do entorno, para sempre esquecidas.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O legado do "Império X" em São João da Barra

Em São João da Barra, com o pescador Milsinho
Foto Isabela Kassow
Eike Batista está proibido de exercer o cargo de administrador nos próximos cinco anos. A julgar pelo estrago que fez em São João da Barra, região esquecida pela irrelevância econômica de seus habitantes, a punição administrativa ao empresário, única até o momento, saiu de graça. As manipulações de resultados para inflar o preço das ações da OGX são "café pequeno" se comparadas à destruição ambiental provocada pelo grupo de Eike Batista, por meio das empresas LLX e OSX, nas áreas destinadas à construção do Complexo Portuário do Açu. Destruição da agricultura familiar e da pesca artesanal, que viviam em perfeito equilíbrio ecológico na região; desapropriações dos moradores locais, violentas e ilegais, ocorridas em plena madrugada, com uso de força policial e agentes de segurança particulares; retirada desenfreada e sem planejamento da vegetação local; contaminação do lençol freático e salinização da água em 7.200 hectares de terras próximas ao empreendimento. Este é o saldo deixado pelo "Império X" em uma das áreas mais belas e equilibradas ecologicamente do litoral Estado do Rio de Janeiro. Mais um caso de abandono e esquecimento em face de uma população cujo drama não é digno de ocupar as seletivas páginas dos grandes jornais brasileiros.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A ameaça economista

Teste nuclear (1953) - Operação Upshot-Knothole,
na Área de Testes de Nevada, Estados Unidos
"A economia é extremamente útil como forma de emprego para os economistas." (John Kenneth Galbraith)

Ao longo da história, de tempos em tempos, as sociedades, de um modo geral, conferem poder excessivo para algum tipo de autoridade, até finalmente constatar, tardiamente, os estragos cometidos pelos "poderosos da vez". Estragos que ora são graves, ora leves, ora são duradouros, ora passageiros. Dentre as autoridades empoderadas, os exemplos são variados: sacerdotes, nobres, generais, curandeiros, literatos, inquisidores, ditadores, cientistas. Agora o momento é das celebridades. E dos economistas. A diferença é que enquanto as primeiras são quase sempre inofensivas, os últimos podem ser socialmente letais, principalmente quando representam unicamente os interesses do capital financeiro especulativo. O poder é duplo quando esses economistas são célebres. E quando tais economistas estão incrustados em governos, imprensa e universidades, a ameaça então é tripla. Os efeitos explosivos. Intensos. Extensos. Incomensuráveis.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Ciência sem paciência

Pedrô sur une palissade, boulevard Raspail, 2009
"Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro."
(Arthur Rimbaud)


Em teoria, os céticos dos clima perderam: 99% dos cientistas são unânimes em afirmar que o aquecimento global é causado pela ação humana. Mas na prática, venceram: pouco ou quase nada se faz para reverter a situação climática emergencial em que vivemos. Por sua vez, na teoria, os neoliberais também perderam: economistas vencedores do Prêmio Nobel, acadêmicos conservadores e até diretores do FMI e do Banco Mundial já condenaram as práticas do Consenso de Washington. Nenhum economista sério acredita mais no fundamentalismo de mercado. E os resultados econômicos dos últimos 30 anos no mundo falam por si. No entanto, o que vemos na prática? Governos, imprensa e uma parte da academia, em especial no Brasil, defendendo práticas ortodoxas que deixariam constrangidos até os editorialistas do The Wall Street Journal. E no campo da criminologia, enquanto a maioria dos estudos sociológicos e antropológicos apontam para a ineficácia do endurecimento das penas privativas de liberdade, políticos e cidadãos clamam pela pena de morte e pela redução da maioridade penal, principalmente aqui nos tristes trópicos. Os exemplos são intermináveis. Para que servem então as ciências da natureza e as ciências sociais se, a despeito de tantas pesquisas científicas, a sociedade parece agir em sentido contrário às respostas que elas oferecem? Parece que perdemos a paciência com a ciência. Só nos interessamos por ciência quando ela se presta ao desenvolvimento de novas tecnologias para fins de consumo. O que não for aplicável imediatamente a um produto ou serviço já não nos interessa mais.

sábado, 7 de novembro de 2015

A catástrofe da eficiência

Foto: Felipe Dana/AP
O setor de mineração, ao ser privatizado, tornou-se uma atividade econômica como outra qualquer, voltada exclusivamente para lucros de curto prazo, redução de custos operacionais e aumento dos fluxos de caixa, de modo a maximizar o valor das ações e, portanto, o retorno do acionista. Todo o resto fica em segundo plano: geração de emprego, preservação do meio ambiente, compromisso com a comunidade local, responsabilidade social, gestão de riscos, investimentos em segurança e prevenção de acidentes. Faz-se apenas o mínimo legal. Os ganhos são privatizados e os custos socializados. A natureza é desertificada. Rios morrem. O solo torna-se infértil. Animais, casas e pessoas desaparecem para sempre. No limite, os benefícios corporativos são pagos com a vida de seres humanos. Comoção mitigada pela irrelevância econômica das vítimas. A corda sempre arrebenta no lado mais fraco. Em breve, o esquecimento. Até a próxima tragédia. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Uma ponte para perdição

O Grito, Edvard Munch
'Uma ponte para o futuro', documento elaborado pela fundação Ulysses Guimarães, think tank associado ao PMDB, é uma peça ideológica de cunho liberal conservador, com propostas econômicas ultraortodoxas, que aprofundariam as reformas neoliberais dos anos FHC. O texto, que mais parece uma encomenda dos tucanos empoleirados mais à direita, propõe o fim das vinculações constitucionais relativas aos gastos com saúde e educação e a desindexação de salários e benefícios previdenciários. Focado na política fiscal e, consequentemente, no corte dos gastos públicos aplicados a programas sociais, o documento endossa a elevada taxa de juros praticada no país, ao justificá-la, sem nenhum respaldo teórico aplicável à realidade brasileira atual, como um instrumento eficaz no combate à inflação. Claramente voltado para os interesses do setor financeiro da economia, o texto permite ao leitor enxergar qual seria o projeto para o país, caso o vice-presidente conspirador Michel Temer ou até mesmo o ex-candidato ressentido Aécio Neves assumissem a presidência da República, em um eventual impeachment. Via TCU na primeira hipótese. Via TSE na segunda. De acordo com Temer, o programa é "para já e para o futuro". Um programa tecnocrático. Perverso. Documento sombrio. Frio. Assustador. Uma ode às agências de risco, aos bancos de investimentos, aos jornalistas da chamada grande imprensa e aos representantes do capital financeiro incrustados nos meios acadêmicos. Mais que um retrocesso, um abismo sem volta. Resta torcer para que tais propostas jamais saiam do papel. Resta aguardar. Ou em último caso, se for preciso, gritar.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Muito barulho por nada

Por que tantas luzes acessas
se já apagamos todas as revoluções?

Por que tanta busca de acumulação
se tudo se concentra em tão pouca mão?

Por que toda essa informação
se só nos concentramos por uns poucos segundos?

Por que tantos estímulos
se já estamos todos anestesiados?

Por que a busca pela beleza
se no entorno só há horror?

Por que tanta reivindicação por educação
se o que nos tira o sono é a prestação do carro?

Por que aspirar saúde
se já nos habituamos à doença?

Por que queremos rostos simétricos
se nossos espelhos são assimétricos?

Por que tantas métricas
se nada é mensurável?

Por que o desejo de juventude
se já estamos envelhecidos pelas convicções?

Por que tanta vaidade
se já ninguém enxerga mais ninguém?

Por que trilhar a perfeição
a não ser pela possibilidade de protelação?

Por que queremos tanta longevidade
se o tempo nos escapa?

Por que tanta solidariedade
se não nos choca a miséria?

Por que tanta compaixão
se já nos acostumamos aos genocídios?

Por que tanta moralidade
se o valor está num Porsche?

Por que tanta liberdade
sempre às custas de mais desigualdade?

Por que esquecemos da fraternidade?

Por que tanta construção
se tudo caminha para a especulação?

Por que tantos celulares
se nossas células estão desligadas?

Por que o Maracanã
se não existe mais a Geral?

Por que tanta literatura se os livros
são mais comprados e citados do que lidos?

Por que tanta arte
se já não nos encantamos mais?

Por que tanto ambientalismo
se nossa preocupação é o preço da gasolina?

Por que tanto ativismo se o que importa
é a cotação da moeda?

Por que tanto erotismo se já não sentimos
mais os nossos corpos?

Por que tanta ciência
se já não temos mais paciência?

Por que tanta indignação se somos
todos mais do mesmo?

Por que tantas perguntas
se já sabemos todas as respostas?

Por que tanto barulho
se já estamos tão próximos do nada?

sábado, 31 de outubro de 2015

Por um desenvolvimento sustentável e includente

Ignacy Sachs - Foto Isabela Kassow
"Você poderia me dizer, por favor, por qual caminho devo seguir agora?", perguntou ela. "Isso depende de onde você quer ir", respondeu o gato. (Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas)

Simplificadamente, há duas correntes significativas no pensamento econômico atual, que influenciam as políticas públicas e dominam os discursos nos meios de comunicação. Em cada uma dessas vertentes, há um elemento preponderante: crescimento econômico decorrente de um equilíbrio geral da economia, livremente impulsionado pelas forças de mercado, para os neoliberais; e crescimento econômico com objetivo de inclusão social e redução das desigualdades, via intervenção do Estado, para os desenvolvimentistas. Há, portanto, uma luta entre dois paradigmas: o neoliberal e o desenvolvimentista, ambos atrelados à ideia de crescimento. E há ainda uma terceira corrente, minoritária, sustentada pelos economistas chamados pós-modernos, cujo principal objetivo seria a preservação do meio-ambiente mediante uma política de crescimento zero ou negativo.

Tais vertentes, a neoliberal, a desenvolvimentista e a pós-moderna, vem sendo amplamente debatidas pela comunidade científica e seus principais teóricos têm, na maioria das vezes, utilizado argumentos estanques e excludentes para defender suas posições. O professor Ignacy Sachs, um notável teórico do desenvolvimento, em seu livro Desenvolvimento: Includente, sustentável e sustentado, busca escapar da armadilha do pensamento compartimentado e nos oferece uma solução sistêmica, em que o crescimento econômico, as forças de mercado, as questões ambientais, as políticas de inclusão social e a redução da desigualdade são conciliadas e sintetizadas em torno de um conceito denominado desenvolvimento includente. Para se compreender a síntese proposta pelo professor Sachs, é importante analisar, ainda que forma breve, cada uma dessas correntes que coexistem no pensamento econômico atual. 

Os neoliberais

A corrente neoliberal, ou nas palavras de Sachs, os fundamentalistas de mercado, "consideram o desenvolvimento um conceito redundante. O desenvolvimento, para essa corrente, viria como resultado natural do crescimento econômico, graças a um 'efeito cascata' (trickle down effect)". Para os neoliberais, não haveria necessidade de uma teoria do desenvolvimento econômico. Bastaria aplicar os princípios da economia moderna, "uma disciplina a-histórica e universalmente válida" que tudo entraria em perfeito equilíbrio. Seria um pouco como as ciências da natureza, a Física ou a Química, por exemplo. A chuva chove, o vento venta, a maré mareia. Não há o que se possa fazer em termos de política econômica. Em resumo, economia não seria uma questão de escolha e sim de forças econômicas autônomas, impulsionadas pelo livre mercado.

Segundo Sachs, essa teoria neoliberal, ainda que funcionasse, já seria totalmente inaceitável do ponto de vista moral e ético. Mas como a experiência histórica e os resultados empíricos nos mostram, trata-se de uma teoria que jamais funcionou na vida prática dos cidadãos de carne e osso. É aplicável apenas nos livros-textos de economia. De acordo com o professor, "num mundo de desigualdade abissais, é um absurdo pretender que os ricos devam ficar mais ricos ainda, para que os destituídos possam ser um pouco menos destituídos". Esse argumento contesta sumariamente a tese de que bastaria fazer "crescer o bolo" que todos seriam beneficiados, ainda que em proporções desiguais. 

O que se tem visto na prática, e isso tem sido muito bem documentado em trabalhos científicos e estatísticas como a do professor Thomas Piketty, é que não apenas a renda cresce de forma cada vez mais desigual, mas sobretudo a riqueza, cuja desigualdade é ainda mais perversa. Sachs acrescenta ainda que, "as economias não se desenvolvem simplesmente porque existem. O desenvolvimento econômico tem sido uma exceção histórica e não a regra. Não acontece espontaneamente como consequência do jogo livre das forças de mercado. Os mercados são apenas uma das muitas instituições que participam do processo de desenvolvimento. Sendo míopes por natureza, socialmente insensíveis e, segundo George Soros, amorais, a sua regulação - melhor seria dizer sua re-regulação - é urgente, tendo em vista o resultado negativo da aplicação das prescrições neoliberais, resumidas pelo Consenso de Washington". Mas a despeito do fracasso das políticas neoliberais em todo o mundo capitalista, sua ideologias ainda predominam em grande parte da academia e nos principais meios de comunicação.

Os desenvolvimentistas

Para enfrentar essa questão de aumento crescente das desigualdades, Sachs aponta para a necessidade de uma urgente reaproximação da ética, da economia e da política. E isso só possível, na visão do professor Sachs, mediante atos de "políticas públicas que promovam a necessária transformação institucional e ações afirmativas em favor dos segmentos mais fracos e silenciosos da nação, a maioria trabalhadora desprovida de oportunidades de trabalho e meios de vida decentes, e condenada a desperdiçar a vida na luta diária pela sobrevivência". A teoria do desenvolvimento surgiu cerca de meio século atrás para lidar com essa contradição entre crescimento econômico e desigualdades sociais.

As primeiras teorias desenvolvimentistas, segundo Sachs, nasceram inspiradas na cultura econômica de uma época, por volta do início dos anos 1940, e pregavam "a prioridade do pleno emprego, a importância do Estado de Bem-Estar, a necessidade de planejamento e a intervenção do Estado nos assuntos econômicos para corrigir a miopia e a insensibilidade dos mercados".  Decorridos mais de meio século, muitas dessas preocupações ainda continuam válidas. Como lidar com o fato de que o capitalismo tem apresentado significativos ganhos de produtividade, aumentado a renda e riqueza agregada de uma maneira sem precedentes na história da humanidade, ao mesmo tempo em que o meio-ambiente vem sendo sistematicamente destruído e a maior parte da população mundial tem sido violentamente explorada e vive excluída desse notável progresso econômico? Como nos ensina Sachs, "o rápido crescimento econômico impulsionado por empresas modernas não reduzirá por si só a heterogeneidade social. Pelo contrário, tende a concentrar riqueza e renda na mão de poucos felizardos que controlam o mundo da alta produtividade, relegando ao mundo da baixa produtividade todos aqueles que se tornam redundantes, devido à substituição do trabalho pelo capital".

Os pós-desenvolvimentistas

Como mencionado na introdução deste texto, há ainda uma terceira corrente, que começa a ganhar força, liderada pelos economistas autodenominados de pós-modernos. Segundo o professor Sachs, esses teóricos propõem renunciar ao conceito de desenvolvimento, para avançar em direção do que chamam de estágio de pós-desenvolvimento, sem explicitar o significado concreto desse estágio. Advogam o crescimento zero em razão dos limites ambientais ao crescimento infinito. Essa vertente tem sido muito cara àqueles que já possuem um alto padrão de conforto material. Artistas, celebridades e ativistas verdes costumam apoiar as ideias de tais economistas e se manifestam favoráveis a um estilo de vida mais simples e ecologicamente sustentável. Ignoram, contudo, que grande parte da população mundial vive em condições precárias e sequer atingiu padrões mínimos de conforto material. Segundo Sachs, é inegável que esses economistas pós-modernos estejam certos quando questionam "a possibilidade de crescimento indefinido do produto material, dado o caráter finito do nosso planeta. Porém, esta verdade óbvia não diz muito sobre o quê deveríamos fazer nas próximas décadas para superar os dois principais problemas herdados do século XX, apesar do seu progresso científico e técnico sem precedentes: o desemprego em massa e as desigualdades crescentes". 

O desenvolvimento includente

Para enfrentar os desafios de uma economia cada vez mais excludente e predatória do ponto de vista ambiental, surge a necessidade de uma nova resposta para lidar com uma equação muito mais complexa, cuja resposta vai muito além da solução simplista de deixar tudo por conta do crescimento econômico impulsionado pelas forças de mercado; ou da mera interrupção da atividade econômica e de políticas desenvolvimentistas para dar luz a uma economia sem crescimento, como querem os economistas pós-modernos. É preciso, em vez de soluções simplistas e reducionistas, alargar a visão do que já existe, reconhecer as experiências bem sucedidas do passado, levar em conta os erros históricos e buscar, de forma inédita, implantar ações integradoras e sistêmicas, que levem em conta a existência das forças de mercado, as necessidades de crescimento em países que foram excluídos dos ganhos de produtividade das últimas décadas, assim como as restrições ambientais e os imperativos de inclusão social e redistribuição de renda e riqueza.

O professor Sachs propõe alargar o conceito de desenvolvimento sustentável, tão em voga nos discursos políticos e corporativos atuais, para um tipo de desenvolvimento que seja também includente. Um desenvolvimento que "pretende habilitar cada ser humano a manifestar potencialidades, talentos e imaginação, na procura da auto-realização e da felicidade, mediante empreendimentos individuais e coletivos. Segundo Sachs, um desenvolvimento verdadeiramente sustentável "obedece ao duplo imperativo ético da solidariedade com as gerações presentes e futuras, e exige a explicitação de critérios de sustentabilidade social e ambiental e de viabilidade econômica. Estritamente falando, apenas as soluções que considerem esses três elementos, isto é, que promovam o crescimento econômico com impactos positivos em termos sociais e ambientais, merecem a denominação de desenvolvimento". E clama por um desenvolvimento que permita uma inclusão verdadeiramente justa, ou seja, um desenvolvimento includente.

Conclusão

A grande questão econômica de nosso tempo não se traduz nos indicadores de sempre, tão comum nos noticiários econômicos. Assim, se tais indicadores já não traduzem mais as necessidades atuais, tampouco as soluções podem se dar a partir desses indicadores. Apesar de os meios de comunicação, os governos, a sociedade civil e grande parte da academia ainda se orientarem por parâmetros obsoletos expressos nos indicadores econômicos tradicionais, o momento é de promover uma grande revolução científica na economia e, consequentemente, em tudo que é impactado por ela. Não se trata de abandonar os antigos indicadores e sim de ir além deles. É preciso romper, de uma vez por todas, com paradigmas que nos levam invariavelmente a solução excludentes. O momento, mais do que nunca, é de inclusão, em todos os níveis: social, político, ambiental, jurídico, sociológico e, fundamentalmente, econômico. O mundo já não suporta mais soluções compartimentadas, estanques, mecanicistas, tecnicistas, cartesianas, que conduzem a otimização das partes em detrimento do todo. A fragmentação do conhecimento e a formulação de políticas encapsuladas nos conduziu a um mundo estilhaçado, despedaçado, fraturado. Um mundo de fissuras inconciliáveis, partições, segregações, injustiças e violências reais e simbólicas. 

É preciso lutar por um novo tipo de desenvolvimento, includente e integrado. Um desenvolvimento em que políticas de sustentabilidade ambiental sejam pensadas e implantadas em conjunto com políticas de inclusão social, redução da pobreza e uma melhor distribuição de renda e riqueza. Somente conciliando questões ambientais com políticas de inclusão social é que realmente estaremos caminhando para uma economia includente, sustentável e sustentada. E uma economia assim só é possível mediante decisões políticas. Escolhas humanas. Acordos civilizatórios. Racionais, justos e includentes. É necessário que sejam criados novos pactos sociais, novas diretrizes, em escala global, para vivermos num mundo que não seja autofágico, autodestrutivo e excludente. É preciso lutar por uma economia realmente nova, que seja capaz de promover bem-estar, educação, cultura, lazer, saúde, preservação ambiental, renda e riqueza para todos. Se não de forma idêntica, pelo menos de um modo mais justo e igualitário.